quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Rainha Ester: Mais que um rosto bonito

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Em 2007 estreou no cinema o filme 300 de Esparta. A turma politicamente correta detestou o filme – e não foi à toa. Nele, os militares não são covardes armados, os políticos pacifistas não são confiáveis e os vilões vêm do oriente – um “crime” na Hollywood de hoje. De qualquer forma, baseado numa famosa graphic novel, de 1998, o filme retrata a Batalha de Termópilas, ocorrida em 480 a.C. Durante três dias, cerca de 7.000 gregos, comandados por 300 espartanos e seu rei, Leônidas, lutaram contra cerca de 120 mil homens do Império Persa, liderados por Xerxes. No final, o confronto nas Termópilas foi fundamental para que a Grécia derrotasse o Império Persa, nas batalhas de Salamina e Plateias. Mesmo sobrepujados, os espartanos ajudaram a preservar a civilização grega, permitindo que ela chegasse a seu auge, no primeiro experimento de liberdade política e de pensamento da história, valores que, até hoje, dirigem o ocidente. Mas, pouco tempo antes, ocorreu outro confronto, agora no coração do Império Persa, que também determinaria os rumos da civilização ocidental.

INTRODUÇÃO
A história da rainha Ester ocorreu no Palácio de Susã, em Elão, que era uma das três capitais do império persa. Ela viveu num tempo de grande perigo, pois seu povo, os israelitas, estava no exílio, após a destruição da cidade de Jerusalém (cf. 2Rs 24.18-25.30; 2Cr 36.11.23) pela Babilônia, que logo foi substituída pela Pérsia. O seu império estendia-se da Índia à Etiópia (1.1), compreendendo a região em que hoje se situam o Irã, o Iraque, o Líbano, Israel, Jordânia, Egito, Turquia e partes da Grécia, Bálcãs, Rússia, Afeganistão e Paquistão. A ação do livro passa-se em torno de 483 a.C., no tempo da deposição da rainha Vasti, pelo rei Assuero. O nome de Deus não é mencionado: uma possibilidade pode ter a ver com o nível de assimilação da sociedade judaica que permaneceu no centro do império persa – isso enfatiza que a salvação da comunidade da aliança vem, inteiramente, de Deus. Nesse sentido, o livro de Ester lembra muito outro livro bíblico, o livro de Êxodo. O tema do cativeiro e da libertação é comum a ambos. Por outro lado, outra explicação, na verdade, implicação, para o silêncio quanto ao uso do nome de Deus, é que a linguagem do culto não precisa nem deve ser usada nas esferas políticas.
Uma breve análise do livro nos ajuda a nos situar. No capítulo 1, o palco é armado. Segundo Heródoto, o provável contexto é uma reunião para considerar uma campanha contra a Grécia. É descrito o esplendor persa (1.1-9), o desafio de Vasti, cansada de ser usada como mulher-objeto, ao rei (1.10-12) e a vingança do rei (1.13-22). No capítulo 2, Ester é escolhida como rainha. Um concurso de beleza é planejado (2.1-4), Ester é apresentada (2.5-11) e é escolhida rainha (2.12-18). Mordecai, descendente de Saul, tio de Ester, descobre uma conspiração (2.19-23). No capítulo 3, Hamã buscou vingar-se dos judeus, porque Mordecai se recusou a se prostrar diante dele (3.2; cf. Dn 3.1-30). “Essa recusa era uma obediência silenciosa ao primeiro mandamento” (Peterson). Hamã era descendente de Agague, da tribo de Amaleque (cf. 1Samuel 15). Ele é promovido (3.1-6), sortes são lançadas para decidir o destino dos judeus (3.7-11) e um édito de extermínio é publicado (3.12-15).
Recomendo o estudo destes capítulos para que você fique por dentro do que vai acontecer, e chamo sua atenção especialmente para o capítulo 4.13-17. Depois de uma angustiada exortação de Mordecai, Ester toma a frente da situação: “Então, lhes disse Mordecai que respondessem a Ester: Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha? Então, disse Ester que respondessem a Mordecai: Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci. Então, se foi Mordecai e tudo fez segundo Ester lhe havia ordenado.”

FRENTE A UMA GRANDE ANGÚSTIA
Os adversários dos judeus, liderados pelo perverso Hamã, buscavam aniquilar o povo de Deus. Ele era um ateu prático, e buscava o poder apenas para atingir seus objetivos (3.8). Ele não suportava nenhuma oposição e se lança numa vingança completamente fora de proporção com o agravo recebido (3.2-6). Ele cria que podia controlar a história, mas os acontecimentos provaram que não, pois o livro traz nas entrelinhas a convicção de que Deus reina. A exortação de Mordecai a Ester (4.14) demonstra que ambos estavam cônscios da providência de Deus: “Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?”. Como resume o Breve Catecismo, “as obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas”.
Frente a um grande problema, esta era a convicção de Mordecai: o Altíssimo, que controla todos os eventos (Sl 145.17; Sl 104.24; Hb 1.4; Mt 10.29,30; Sl 103.19; Jó 38-41) tinha levantado Ester como Seu instrumento para a salvação de Seu povo. Nestes tempos difíceis que temos vivido, quando o julgamento de Deus se manifesta sobre nossa cultura (cf. Rm 1.18-32), entendemos que Deus tem nos levantado como instrumentos de sua providência para testemunho em todas as esferas da vida, tais como na família, no trabalho, na escola, em ação social e política na igreja? E que tipo de servos temos sido? Servos confiantes na ação de Deus? Servos dependentes da sabedoria da comunidade da aliança, como Ester? Servos silenciosos e humildes como Mordecai?

O CORAÇÃO DE ESTER
A resposta de Ester (4.16) revela uma espiritualidade fervorosa, uma verdadeira confissão de fé: “Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei”. Ela demonstrou apreensão, mas suplicou o sustento e a comunhão de outras pessoas, testemunhando uma grande dependência de Deus, mais do que da coragem humana. Mesmo que a oração não seja mencionada, ela sempre acompanhava o jejum, pois o objetivo desta era disciplinar a experiência de oração (Ex 34.28; Dt 9.9; Jz 20.26; Ed 8.21.23). Os três dias de jejum indicam vividamente a seriedade da situação!
Nestas palavras vemos a paixão de Ester por Deus, e em como ela correspondeu à situação: Uma espiritualidade disciplinada, centrada no Deus vivo. Como temos guardado nosso coração em meio a nossa peregrinação (1Pe 1.1)? Temos valorizado o estudo e meditado na Palavra de Deus? Gastamos tempo na oração em secreto e dependemos da comunhão dos santos? Estes são os meio que Deus nos deu para termos um coração como o de Ester.
TESTEMUNHANDO PERANTE O REI
“Se eu perecer, pereci” (4.16). Se estas palavras de Ester parecem muito dramáticas, é porque não conhecemos o testemunho de servos de Deus como Atanásio (299-373) e Martinho Lutero (1483-1546). Ela entendeu que sua função pública era para glória de Deus e para benefício de Seu povo, não para proveito próprio. Lutero, certa vez, disse: “Ainda que o seu trabalho seja o de um lavador de pratos ou de um menino que cuida do estábulo, a sua vocação é divinamente indicada, tão sagrada quanto a de qualquer pastor ou oficial da igreja.” O reformador estava tão somente ilustrando a doutrina bíblica que mostra a santidade de todas as vocações legítimas, e Ester entendeu que Deus, em Sua providência, a levantou para, como rainha, que estava em um centro de decisões políticas, defender o povo eleito. Como temos glorificado a Deus com nossas vocações? Entendemos, como Ester, que é Ele quem nos chama para sermos sal e luz (cf. Mt 5.13.16) para influenciar a sociedade que vivemos, e trazer o céu para a terra?

CONCLUSÃO
A partir desse diálogo dramático, o resto é história, como se diz. Ester se apresenta diante do rei, com risco de vida (5.1-8); Ainda que Hamã faça planos para enforcar Mordecai (5.9-14), aquele é humilhado, enquanto esse é exaltado (6.1-13). Em seus sonhos de glória pessoal, Hamã revela o que ele realmente queria: aclamação e adulação públicas. Por fim, Hamã é executado (6.14-7.10), o livramento dos judeus é planejado (8.1-17) e executado (9.1-15). Inclusive “muitos… se fizeram judeus” (8.17), conversão essa que assinala o clímax da história. Quais foram os resultados da atuação de Ester, comprometida que estava com o Senhor? 1) Deus torceu a história e abençoou seu povo (9.25 e 10.2); 2) produziu-se libertação e alegria na comunidade de fé (9.19); 3) surgiu uma sociedade marcada por igualdade e justiça (9.19,22); 4) Deus exaltou seus servos fiéis (10.2); 5) Deus transformou um símbolo do mal em símbolo eterno de Sua providência, para ser festejado para sempre (9.26).
No fim, por causa da fidelidade de Ester e Mordecai, o povo da aliança foi preservado. E o que garantiu a sobrevivência dessa comunidade no estrangeiro não foi sua pureza espiritual nem sua piedade moral, mas a graça de Deus. E da salvação desse povo viria o Salvador, Cristo Jesus, que morreu e ressuscitou por causa de nossos pecados. E por meio do Salvador a igreja cristã veio a existir.
“Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso. Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Ap 19.6-8)

Que Deus levante em nossos dias mais servos como Ester e Mordecai!



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