segunda-feira, 27 de junho de 2011

JÓ - O PROBLEMA DO SOFRIMENTO





Jó – O problema do sofrimento

O sofrimento humano é o grande problema, antigo como o tempo, discutido no livro de Jó.
Esta questão tem continuado sendo um dos problemas insolúveis do homem. O livro de Jó tampouco proporciona uma solução final à questão. Contudo, verdades de grande significação estão projetadas nesta extensa discussão.
Considerado como uma unidade, o livro de Jó é em sua presente forma, o que poderia classificar-se como um drama épico. Embora a maior parte da composição seja poética, sua estrutura geral é em prosa. Nesta última forma, a narrativa proporciona base para sua total discussão.
Nem a data de seu fundo histórico, nem o tempo de sua composição, podem ser localizados neste livro com certeza, e o autor é anônimo.
O livro de Jó tem sido reconhecido como uma das produções poéticas de todos os tempos. Entre os escritores hebraicos, o autor deste livro utiliza o mais extenso vocabulário; às vezes tem sido considerado como o Shakespeare dos tempos do Antigo Testamento. Neste livro se exibe um vasto tesouro de conhecimentos, um soberbo estilo de vigorosa expressão, profundidade de pensamento, excelente domínio da linguagem, nobres ideais e um elevado nível ético, além de um genuíno amor pela natureza. As idéias religiosas e filosóficas têm merecido a consideração dos maiores teólogos e filósofos até o presente.
Não só tem uma multiplicidade de interpretações —demasiado numerosas para serem consideradas neste volume—, senão que o texto em si mesmo tem sofrido consideravelmente extensas emendas, conjecturas, fantásticas correções e reconstruções [1]. Numerosas têm sido as opiniões e as especulações referentes a sua origem.
O leitor que se enfrenta com ele deveria considerar este livro como uma unidade [2]. As variadas interpretações e as numerosas teorias de sua origem merecem a oportuna investigação para os estudiosos avançados, mas a simples verdade contida neste livro como uma unidade, é uma significativa faceta da revelação do Antigo Testamento. Para guiar o leitor em sua compreensão da mensagem, este livro pode ser subdividido da seguinte forma:

I. Introdução ou situação histórica                                            Jó 1.1-3.26
II. O diálogo com os três amigos                                                Jó 4.1-31.40
    a. Ciclo primeiro                                                            Jó 4.1-14.22
        Elifaz                                                                      Jó 4.1-5.27
                                                                                   Jó 6.1-7.21
        Bildade                                                                    Jó 8.1-22
                                                                                   Jó 9.1-10.22
        Zofar                                                                      Jó 11.1-20
                                                                                   Jó 12.1-14-22
    b. Ciclo segundo                                                            Jó 15.1-21.34
        Elifaz                                                                      Jó 15.1-35
                                                                                   Jó 16.1-17.16
        Bildade                                                                    Jó 18.1-21
                                                                                   Jó 19.1-29
        Zofar                                                                      Jó 20.1-20
                                                                                   Jó 21.1-34
    c. Ciclo terceiro                                                             Jó 22.1-31.40
        Elifaz                                                                      Jó 22.1-30
                                                                                   Jó 23.1-24.25
        Bildade                                                                    Jó 25.1-6
                                                                                   Jó 26.1-31.40
III. Os discursos de Eliú                                                               Jó 32.1-37.24
IV. Os discursos do Todo Poderoso                                           Jó 38.1-41.34
V. A conclusão                                                                                 Jó 42.1-17

O lar pátrio de Jó era o país de Uz [3]. Embora falta a correlação cronológica específica, os tempos em que viveu Jó encaixam melhor na era patriarcal [4]. Os infortúnios deste homem justo dão pé à base para o diálogo que constitui a maior parte deste livro.
Vividamente, a personalidade de Jó aparece retratada em três situações diferentes: em tempos de uma prosperidade sem precedentes, na extrema pobreza, e em seu incomensurável sofrimento pessoal. A fé de Jó vai além do mundano e aponta sempre a uma esperança eterna. E ainda quando o último não está claramente definido, Jó não chega ao completo desespero durante o tempo crucial de seus sofrimentos.
Jó é descrito como uma pessoa temerosa de Deus, que não teve jamais igual em toda a raça humana (1.1,8; 2.3; 42.7-8). O alto nível ético pelo que viveu está além da realização da maior parte dos homens (29-31). Inclusive depois de que seus amigos têm analisando a pauta completa de sua conduta, a moral de Jó e seu agir permanece além de toda repreensão.
Para começar com o relato, Jó era o homem mais rico do Leste. As possessões materiais, porém, não obscurecem sua devoção para Deus. em tempos felizes de contínuas festas, realiza sucessivos sacrifícios para o bem-estar de toda sua família (1.1-5). O uso de sua riqueza em ajudar o necessitado, se reflete em todo o livro.
Repentinamente, Jó fica reduzido a uma extrema pobreza. Em quatro catastróficos acontecimentos, perde todas suas possessões materiais. Duas dessas grandes desgraças, aparentemente, acontecem por causas naturais: os ataques dos sabeus e dos caldeus. As outras duas, um terrível fogo que consume todo e um grande furacão estavam fora do controle humano. Jó não somente fica reduzido a uma total bancarrota, sena que perde a todos seus filhos.
Jó ficou sumido numa terrível confusão, desgarra suas vestes e rapa sua cabeça.
Então, se volta a Deus em adoração. Reconhecendo que tudo o que tinha possuído provinha de Deus, ele também reconhece que na providência de Deus tinha perdido tudo. E por isto o abençoa, não acusando-o de culpa alguma.
Atacado de uma terrível sarna de ulceras malignas (2.7-8), Jó se senta num monturo cheio de cinzas, e desesperadamente procura alívio rascando-se com um caco suas feridas e pústulas. Nesse momento, sua esposa lhe aconselha que amaldiçoe a Deus e morra. De novo, este homem justo surge acima de toda circunstância, e reconhece a Deus como dono e senhor de todas as vicissitudes da vida.
Três amigos,Elifaz, Bildade e Zofar, chegam a visitá-lo com o propósito de confortá-lo.
Eles apenas se o reconhecem, sumido num estado de agudo sofrimento. Tão surpreendidos estavam, que sentam em silêncio durante sete dias. Jó finalmente rompe sua atitude passiva e amaldiçoa o dia de seu nascimento; a não existência teria sido melhor que suportar tais sofrimentos.
Com a angústia na alma e o tormento físico no corpo, sopesa o enigma da existência numa pergunta: Por que terei nascido?[5] O problema que serve de base na totalidade da discussão, era o fato de que nem Jó nem seus amigos conheciam a razão para aquelas evidentes desgraças e infortúnios. Para eles, a razão de todo é desconhecida. Satanás aparece ante Deus para pôr a prova a devoção de Jó e sua fé. E faz acusação de que Jó simplesmente serviu a Deus pelas recompensas materiais, e lhe é concedida permissão para arrasar todas as possessões do homem mais rico do Leste, ainda que não para danar o próprio Jó. Quando a filosofia resultante de Jó a respeito da vida resiste à de Satanás, Deus concede ao acusador a liberdade de afligi-lo, porém com a específica restrição de não atentar contra sua vida. Embora Jó tinha amaldiçoado o dia de seu nascimento, nunca amaldiçoou Deus. ciente por completo de seus sofrimentos e não achando nenhuma explicação, Jó propõe a pergunta "por que?" enquanto afunda no mistério de sua peculiar sorte na vida.
Com certa repugnância, seus amigos tentam consolá-lo, já que assim ele o tinha feito com muitos em tempos passados (4.1ss). Elifaz, precavidamente, ressalta que nenhum mortal com sabedoria limitada pode aparecer perfeitamente justo ante um Deus onipotente. Falhando em reconhecer a genuína devoção de Jó para Deus, Elifaz chega à conclusão de que está sofrendo a causa do pecado (4-5).
Em resposta, Jó descreve a intensidade de sua miséria, que inclusive seus próprios amigos não compreendem. Para ele, parece como se Deus o tivesse abandonado a um contínuo sofrimento. Em vão deseja com veemência que chegue uma crise na qual possa achar alívio ou bem, a morte para seu pecado (6-7).
Bildade, imediatamente, replica que Deus não transtornaria a justiça. Apelando à tradição e afirmando que Deus não rejeitaria um homem sem mácula, Bildade implica que Jó está sofrendo precisamente por seus próprios pecados (8).
"Como um homem pode ser justo ante Deus?" é a seguinte pergunta de Jó. Ninguém é igual a Deus. Deus é onipotente e age seguindo sua vontade sem ter de render contar a ninguém. Sem árbitro nem juiz que intervenha ou explique a causa de seus sofrimentos, Jó apela diretamente ao Todo Poderoso. Aborrecido da vida em tão insuportável estado, Jó espera o alívio da morte (9-10).
Zofar, decididamente, admoesta Jó por apresentar tais questões. Deus poderia revelar seu pecado; mas a sabedoria divina e o poder de Deus estão fora do alcance da compreensão do homem. Aconselha a Jó que se arrependa e confesse sua culpabilidade, concluindo que a única esperança para o malvado é a morte (11).
Jó, corajosamente, afirma que a sabedoria não está limitada a seus amigos. Toda a vida, tanto a humana como a das bestas, está nas mãos de Deus. de acordo com seus oponentes, reafirma que Deus é onipotente, onisciente e justo. Com uma intensa veemência para com Deus, porém, não comprovando receber nenhum alívio temporal, Jó afunda nas profundezas da desesperação. Num período de dúvida, se pergunta se haverá vida após a morte (12-14).
Elifaz acusa a Jó de falar coisas sem sentido, desrespeitando assim a Deus. Afirmando que é demasiado arrogante, Elifaz insiste que a tradição tem a resposta: o sofrimento é o resultado do pecado. O conhecimento comum ensina que o malvado deve sofrer (15).
Lembrando a seus ouvintes que aquilo não era nada de novo, Jó conclui retamente que seus amigos são uns miseráveis consoladores. Embora seu espírito esteja quebrantado, seus planos desfeitos e sua vida tocando a seu fim, mantém que seu testemunho no céu advogará por ele (16-17).
Bildade tem pouco que agregar. Simplesmente reafirma a asserção de seus colegas, de que o malvado deve sofrer. Todo o que sofre, forçosamente deve ser ímpio (18).
Esquecido pelos amigos, afastado e abandonado por sua família, aborrecido por sua esposa, e ignorado por seus servos, Jó descreve sua solitária condição de estar sofrendo pela mão de Deus. Somente a fé o leva além de suas presentes circunstâncias. E antecipa a futura vindicação sobre a base de sua conduta (19).
A essência da réplica de Zofar é que a prosperidade do malvado é muito curta e breve. Volta obstinadamente a repetir que o sofrimento é a parte que toca ao homem malvado (20).
Jó termina o segundo ciclo de discursos, rejeitando as conclusões básicas de seus amigos. Muita gente malvada goza plenamente das coisas boas da vida, recebe um honorável sepultamento e são respeitadas por seus êxitos. Isto sempre foi constatado pelo que observam e por aqueles que têm um amplo conhecimento dos homens e dos assuntos do mundo (21).
No terceiro ciclo de suas discussões, continua o problema de encontrar a solução para Jó. acreditando firmemente que aquele sofrimento é o resultado do pecado, os amigos de Jó chegam à conclusão de que Jó tinha sido um pecador. Já que a causa do sofrimento não pode ser atribuída a um Deus justo, onipotente, deve ser achada no sofrimento individual. Elifaz, portanto, culpa a Jó de pecados secretos, acusa a Jó de que assumiu que Deus, em sua distância infinita não perceberia seu tirânico tratamento com os pobres e os oprimidos. Já que os pecados de Jó são a causa de sua miséria, Elifaz o aconselha que se volte para Deus e se arrependa (22).
Jó aparece confuso. Seu sofrimento continua e os céus permanecem silenciosos. Uma sensação de urgência e de impaciência o surpreende ao ver que Deus não age em seu nome.
Tudo quanto ele tinha feito era totalmente conhecido pelo Deus ao qual tinha servido fielmente com fé e obediência. Ao mesmo tempo, a injustiça, a violência e a iniqüidade continuam, e Deus sustenta a vida dos perversos e malvados (23-24).
Bildade fala brevemente. Ignorando os argumentos, tenta que Jó caia de joelhos ante Deus. e nisto, não teve êxito (25).
Jó está de acordo com seus amigos, em que o homem era inferior a Deus (26). Afirmando que ele era inocente, e que não havia razão para seus cargos, ele é o vivo retrato do malvado. Seus amigos não tinham nenhuma garantia de perder sua prosperidade. Embora o homem tem explorado e buscado os recursos da natureza, ele ainda estava confuso em sua busca pela sabedoria. Esta não podia ser comprada, ainda que Deus mostrou sua sabedoria por todo o universo. Poderia o homem achá-la? Somente o temente de Deus, o homem moral, tem acesso a tal sabedoria e a sua compreensão (28).
Jó conclui seu terceiro ciclo de discussões, revisando todo seu caso. Contrasta os dias dourados de extrema felicidade, prosperidade e prestígio com seu presente estado de sofrimento, humilhação e angústia da alma, na consciência de que o que lhe está acontecendo era ordenado por Deus. Com consideráveis detalhes, Jó faz um reconto de seu nível ético e integridade em seu trato com os homens. Não manchado pela imoralidade, a vaidade, a avareza, a idolatria, a amargura ou a insinceridade, Jó reafirma sua inocência. Nem o homem nem Deus poderiam sustentar os cargos que seus amigos levantaram contra ele (29-31).
 Aparentemente, Eliú tem ouvido pacientemente os debates entre Jó e seus três amigos.
Sendo mais jovem, se retrai de falar até que é compelido a fazê-lo para tratar de discernir o que era verdade de Deus. após denunciar a Jó por sua atitude para com o sofrimento, rejeita suas queixas.
Com a tenra sensibilidade para o pecado e uma genuína reverência para com Deus, Eliú sugere a sublimidade de Deus como mestre que procura disciplinar o homem. A grandeza de Deus, estendida nas obras da criação da natureza, é surpreendente. A compreensão do homem para Deus e seus caminhos está condicionada pela limitação de sua mente. Como poderia o homem conhecer retamente a Deus? portanto, não seria prudente fazê-lo com fatuidade, mas praticar o temor de Deus que é grande em poder, justiça e retidão (32-37).
Numa multidão de palavras, nem Jó nem seus amigos têm resolvido o problema da retribuição, o mistério do sofrimento, ou os disciplinares desígnios no que diz respeito à vida de Jó. Tampouco os discursos sobre o Altíssimo apresentam um razoável argumento que permita uma detalhada e lógica explicação (38-41). A resposta de Deus desde um redemoinho reside na grandeza de sua própria majestade. As maravilhas do universo físico, e as do reino animal, mostram a sabedoria de Deus, além de qualquer concepção ou entendimento. Incluso Jó, que tem respondido a seus amigos repetidamente, reconhece humildemente que ele não poderia responder a Deus. mas Deus continua falando. Acaso não tem Ele criado os monstros do mar tanto como a Jó? Será que Jó teria o poder de controlar o beemote (hipopótamo) e o leviatã (crocodilo)? Se o homem não pode enfrentar-se com essas criaturas, como poderia esperar enfrentar seu criador, o Um que os criou a todos eles?
Jó está estupefato com a sabedoria e o poder de Deus. certamente, os propósitos e desígnios dAquele que tem tal sabedoria e poder, não podem ser questionados por mentes finitas. Quem põe em dúvida a propriedade dos caminhos de Deus no sofrimento dos justos ou a prosperidade do malvado? Os secretos e motivações de Deus em sua justiça com o gênero humano estão além de todo alcance humano. No pó e na cinza, Jó se inclina humildemente em adoração, confessando sua insignificância. Numa nova perspectiva de Deus, assim como de si mesmo, comprova que tem falado além de seu limitado conhecimento e compreensão. Pela fé e a confiança em Deus, ele se sobrepõe às limitações da razão humana na solução dos problemas, que com tanta audácia apresentara ao silêncio dos céus e antes que este se rompa (42.1-6).
 Identificado por Deus como "meu servo", Jó se converte no sacerdote oficiante e intercessor para seus três amigos que tão estupidamente tinham falado. Sua fortuna foi restaurada em dupla medida. Na camaradagem de seus parentes e amigos, Jó volta a experimentar o bem-estar e as bênçãos de Deus, depois do tempo de sua severa provação.



[1] E. J. Kissane, The Book of Job (Nueva York, 1946), p. XII, ressalta que a indulgência de críticos como H. Torcziner, Das Buch Hiob (Wien, 1920), que considera Jó como meramente uma coleção de fragmentos, conduz a uma falsa impressão do estado do texto hebraico de Jó. A poesia do mais alto grau, o extenso vocabulário, a grande proporção harpax legomena, os sutis e obscuros argumentos e a repetição das mesmas opiniões em palavras diferentes, tudo isso conduz a erros de transcrição e tradição, supondo que os escribas não compreendiam completamente a linguagem.
[2] Ver Aage Bentzen, Introductíon to the Old Testament, Vol. II, pp. 174-179, 9, quem considera a prosa e a maior parte da seção poética como uma unidade.
[3] Provavelmente o nordeste da Arábia ou o Edom. Ver HarjKr's Bible Dictionarv p. 792 para discussão do tema.
[4] Razões aduzidas para esta correlação: 1) condições da família; 2) não referência à Lei ou condições religiosas de tempos posteriores; 3) não referência ao ensino dos profetas; 4) a simplicidade de vida é similar a dos patriarcas. Ver S. C. Yoder Poetry of the Old Testament (Scottdale, Pa.: Herald Press, 1948), p. 83.
[5] Note-se que também Jeremias amaldiçoou seu dia de nascimento (Jr 20).

Fonte: Samuel J. Schultz - A História de Israel no AT


Pesquisa: Pr.Charles Maciel Vieira


O LIVRO DE SALMOS - HINOLOGIA DE ISRAEL




Os Salmos – Hinologia de Israel

Por mais de dois milênios, o livro dos Salmos tem sido a mais popular coleção de escritos do cânon do Antigo Testamento.
Os Salmos foram utilizados em serviços de culto religioso pelos israelitas, começando nos tempos de Davi. A Igreja cristã tem incorporado os Salmos à liturgia e a seu ritual ao longo dos séculos. Em todos os tempos, o livro dos Salmos tem merecido mais interesse pessoal e maior uso em prático e no culto que qualquer outro livro do Antigo Testamento, superando todas as limitações geográficas ou raciais [1]. A popularidade dos Salmos descansa no fato que refletem a experiência comum da raça humana. Compostos por numerosos autores, os vários Salmos expressam as emoções, sentimentos pessoais, a gratidão, atitudes diversas, e interesses da média individual das pessoas. As gentes de todo o mundo têm identificado sua participação na vida com a dos salmistas [2]. Aproximadamente dois terços dos 150 Salmos estão atribuídos a vários autores por seu título. O resto é anônimo. Na identificação feita até agora, 73 se vinculam a Davi, 12 a Asafe, 10 aos filhos de Coré, 2 a Salomão, 1 a Moisés e 1 aos ezraitas Hemã e Etã [3]. Os títulos também podem proporcionar informação concernente à ocasião em que foram compostos os Salmos pelas instruções musicais e seu adequado uso no culto [4].
Comandante e quando foram colecionados os Salmos, é assunto sujeito a variada e múltipla discussão. Já que Davi tinha tão genuíno interesse em estabelecer o culto, e começou com o uso litúrgico de alguns deles, é razoável associar a primeira coleção com ele, como rei de Israel (1 Cr 15-16). O cantar dos salmos na casa do Senhor também foi um uso introduzido por Davi (1 Cr 6.31). Com toda probabilidade, Salomão, Josafá, Ezequiel e outros concluíram o arranjo e a extensão do uso dos Salmos em subseqüentes centúrias. Esdras, da era post-exílica, pôde ter sido o editor final do livro.
Com poucas exceções, cada Salmo é uma unidade simples, sem relação com o precedente ou o que o segue. Conseqüentemente, a longitude do livro com 150 capítulos é muito difícil de resenhar. Uma divisão quíntupla preservada no texto hebraico e nas mais antigas versões, é como se segue:

I (Salmos 1-41)
II (Salmos 42-72)
III (Salmos 73-89)
IV (Salmos 90-106)
V (Salmos 107-150)

Cada uma destas unidades termina numa doxologia conclusiva. Na última divisão, o Salmo final serve como a doxologia conclusiva. Embora se têm feito numerosas sugestões para este arranjo, ainda permanece em pé a questão que diz respeito à história ou propósito de tais divisões.
O sujeito da questão parece proporcionar a melhor base para um estudo sistemático dos Salmos. Vários tipos podem ser classificados em certos grupos, já que representam uma similitude de experiência como fundo, e têm um tema comum. Considerando que o saltério inteiro não pode ser devidamente tratado neste breve estudo, a seguinte classificação, com exemplos para cada categoria, pode ser utilizada como sugestão para um ulterior estudo:

I. Orações dos justos                                        17, 20, 25, 28, 40, 42, 55, etc.
II. Salmos penitenciais                                      6, 32, 38, 51, 102, etc.
III. Salmos de louvor                                        65, 95-100, 111-118, 146-150.
IV. Salmos dos peregrinos                                 120-134.
V. Salmos históricos                                         78, 105, 106, etc.
VI. Salmos messiânicos                                     22, 110, etc.
VII. Salmos alfabéticos                                      25, 34, 111-112, 119, etc.

A necessidade da salvação do homem é universal. Isto está expresso em muitos Salmos nos quais a voz do justo apela a Deus em busca de auxílio. Abatido pela ansiedade, o perigo imediato, um sentimento de vindicação ou uma necessidade para a ressurreição, fazem que a alma se vire para Deus.
Os mais intensamente expressados são os anelos do indivíduo penitente. Com poucas exceções, esses Salmos são atribuídos a Davi. Livremente, ele expressa seus sentimentos da sincera confissão do pecado. ms exemplar é o Salmo 51, cujo fundo histórico se acha em 2 Sm 12.1-13. Totalmente consciente de sua terrível culpabilidade, que se expressa com uma ênfase tripla —o pecado, a Isaque e a transgressão—, Davi não busca evadir-se de sua pessoal responsabilidade. Pasmado e totalmente humilhado, se volta a Deus pela fé, percebendo que um espírito quebrantado e humilhado é aceito por Deus. Os sacrifícios e serviços de um indivíduo arrependido são a delicia do Deus da misericórdia. O Salmo 32 está relacionado com a mesma experiência, e indica a guia divina e louvor que se converte em realidade na vida de um que tenha confessado seu pecado com arrependimento.
Os Salmos de louvor são numerosos. Estas expressões de exultação e gratidão são amiúde a conseqüência natural de uma grande libertação. O louvor a Deus, com freqüência, se expressa pelo indivíduo que comprova as obras da criação na natureza do Todo Poderoso (Salmos 8, 19, etc.). A ação de graças pelas colheitas (65), a alegria na adoração (95-100), a celebração das festas (111-118), e os "Grandes Aleluias" (146-150) se fazem partes importantes da salmodia de Israel.
Os Salmos dos peregrinos (120-134) estão etiquetados como "Cantos dos Antepassados" ou "Cânticos graduais". O fundo histórico para esta designação é desconhecido. Foram emitidas várias teorias assumindo-se geralmente que esses Salmos estavam associados com as peregrinações anuais dos israelitas a Sião para os três grandes festivais [5]. Este grupo distintivo tem sido reconhecido como um saltério em miniatura, já que seu conteúdo representa uma ampla variedade de emoções e experiências.
Nos Salmos históricos, os salmistas refletem as relações de Deus com Israel em tempos passados. Israel teve uma história de variadas experiências que proporcionou um rico transfundo que inspirou seus poetas e escritores de cantos. Em toda a extensão desses Salmos, há numerosas referências aos feitos miraculosos e divinos favores que foram concedidos a Israel em tempos passados.
Os Salmos messiânicos indicavam profeticamente alguns aspectos do Messias como foi revelado no Novo Testamento. Sobressaindo nesta classificação está o Salmo 22, que tem várias referências e que estabelece um paralelo com a paixão de Jesus, retratadas nos quatro Evangelhos. embora este grupo reflita a experiência emocional de seus autores, suas expressões, sob inspiração divina, têm importância profética. Inter-relacionado com a vida e a mensagem de Jesus, este elemento nos Salmos é vitalmente significativo como está interpretado no Novo Testamento, vagamente expressado nos Salmos de culto, as referências messiânicas se fazem mais aparentes ao serem cumpridas em Jesus, o Messias. Outro grupo de Salmos pode ser classificado pelo uso do acróstico em seu arranjo. O mais familiar em sua categoria, é o Salmo 119. Por cada série DE oito versos, se utiliza sucessivamente uma letra do alfabeto hebraico. Em outros Salmos somente se assina uma línea simples para cada letra.
Naturalmente, o uso deste dispositivo não pode ser efetivamente transmitido às versões em outras línguas.
Com este analise diante dele, o leitor principiante reconhecerá que o livro dos Salmos é tão diverso como um hinário de igreja. A classificação estendida dos Salmos incrementa necessariamente a duplicação, nas diversas categorias. Que esta consideração não seja senão um princípio para o ulterior estudo de cada Salmo individual.


[1] Sobre a base dos textos hebraico e grego e de outras fontes, o uso litúrgico dos seguintes salmos tem sido sugerido na forma que se segue:
30 – Festa da Dedicação            7 – Purim; 29 – Pentecoste
83 ou 135 – Páscoa       137 – comemoração da destruição do templo
29 – últimos dias da Festa dos Tabernáculos
e os que se seguem eram cantados durante a diária oferenda de fogo:
24 – domingo    38 – segunda-feira
82 - terça-feira 94 – quarta-feira
81 – quinta-feira            38 e 92 – sábado
Ver R. H. Pffeifer, the Books of the Old Testament (Nova York: Harper & Brothers, 1957), pp. 195-196.
[2] A presente divisão dos Salmos não aparece nos primeiros manuscritos hebraicos que ainda existem. O número total varia em diferentes arranjos. O Talmude de Jerusalém tem um total de 147. a LXX combina o Salmo 9 e 10, e também 114 e 115, porém divide o 116 e 147 em dois cada um, e agrega um salmo apócrifo, totalizando 150.
[3] A frase hebraica "dedhavidh" pode, às vezes, significar "pertencentes a Davi", mas o conteúdo de salmos tais como o 3, 34, 51-54, 56, 57, 59, 60, e outros, estabelecem o fato de que Davi é o autor. Em conseqüência, muitos outros poderiam ter sido escritos por ele. Ver J. Young, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), pp. 87, 300. Ver também a tese não publicada de Elaine Nordstrom, "A Chronological Arrangement of the Psalms of David", Wheaton College Library, Wheaton, 111.
[4] O fato de que alguns dos termos usados nos títulos dos Salmos não fossem compreendidos pelos tradutores da LXX, favorece sua antigüidade.
[5] Ver Leslie S. M. Caw, "The Psalms" en The New Bible Commentary, p. 498


Fonte: Samuel J. Schultz - A História de Israel no AT


Pesquisa: Pr.Charles Maciel Vieira


O IMPÉRIO PERSA (539-400 a.C.)





Pérsia – 539-400 a.C.

No princípio do primeiro milênio a.C., sucessivas ondas de tribos árias invadiram e se estabeleceram sobre a planície persa [1]. Dois grupos surgiram eventualmente como historicamente importantes: os medos e os persas.
Sob o dinâmico governo e mandado de Ciaxares, Média se afirmou como uma ameaça da supremacia assíria durante a última metade do século VII. No 612 a.C., as forças combinadas da Média e Babilônia destruíram Nínive. O matrimônio de Nabucodonosor com a neta de Ciaxares selou esta aliança estabelecendo-se um delicado equilíbrio de poder através de todo o período da expansão babilônica e sua supremacia.

• Ciro o Grande
(559-530 a.C.). Pérsia se converteu num poder internacional de primeiro nível sob Ciro o Grande [2]. Chegou ao trono no 559 como vassalo da Média, tendo sob seu controle somente a Pérsia e algum território elamita conhecido com Ansham. Para ele, existiam muitos territórios para conquistar. Astiages (585-550) exerceu um governo fraco sobre o Império Medo. Babilônia era ainda muito poderosa sob Neriglisar, porém começou a mostrar sinais de decadência conforme Nabônido descuidou os assuntos do estado para dedicar seu tempo à restauração do culto à lua em Harã. Lídia, no longínquo oeste, tinha-se aliado com a Média, enquanto que Amassis, do Egito, estava nominalmente sob o controle da Babilônia.
Já em época precoce de seu reinado, Ciro consolidou as tribos persas sob seu mandado.
Depois realizou um pacto com Babilônia contra a Média. Quando Astiages, o governante dos medos, tratou de suprimir a revolta, seu próprio exército se rebelou e fez que seu rei se voltasse para Ciro. Como resultado de sua subjugação à Pérsia, os medos continuaram jogando um importante papel (ver Ester 1.19; Dn 5.28, etc.).
Desde o oeste, Creso, o famoso rei transbordante de riqueza da Lídia, cruzou o rio Halys para desafiar o poderio persa. Atravessando a Babilônia na primavera do 547, Ciro avançou ao longo do Tigre e cruzou o Eufrates na Capadócia. Quando Creso declinou as ofertas conciliatórias de Ciro, os dois exércitos se enfrentaram numa batalha decisiva, aproximando-se o inverno, Creso retirou seu exército e se dirigiu a sua capital em Sardis com uma força protetora mínima.
Antecipando que Ciro o atacaria na seguinte primavera, solicitou ajuda da Babilônia, o Egito e a Grécia. Num movimento surpresa, Ciro se dirigiu imediatamente sobre Sardis. Creso dispunha de uma cavalaria superior, porém lhe faltava infantaria para resistir o ataque. Ciro, astutamente, colocou camelos na frente de suas tropas. Assim que os cavalos lídios cheiraram o fedor dos camelos, foram atacados pelo terror e ficaram ingovernáveis. Por esta causa, os persas ganharam a vantagem da surpresa e dispersaram o inimigo. Assegurando-se Sardis e Mileto, Ciro resolveu seu encontro com os gregos na fronteira ocidental e se voltou para o leste, a fim de conquistar outras terras [3]. No leste, Ciro marchou vitoriosamente com Estados Unidos exércitos pelos rios Oxus e Jaxartes, reclamando o território sogdiano e expandindo a soberania persa até as fronteiras da Índia [4]. Antes de voltar à Pérsia, tinha duplicado a extensão de seu império.
A seguinte empresa de Ciro foi dirigir-se às ricas e férteis planícies da Babilônia, onde uma população insatisfeita com as reformas de Nabônido estava disposta a dar as boas-vindas ao conquistador. Ciro pressentiu que o momento estava maduro para a invasão e não perdeu o tempo em conduzir suas tropas através das montanhas, aproveitando seus passos, e evitando os aluviões. Conforme várias importantes cidades, tais como Ur, Larsa, Ereque e Quis apoiavam a conquista persa, Nabônido resgatou os deuses locais e os levou para salvaguardá-los à grande cidade da Babilônia, que achava fosse inexpugnável. Porém, os babilônicos se retiraram diante do avanço do invasor. Em pouco tempo, Ciro se estabelecia como o rei da Babilônia.
Na Babilônia, Ciro foi aclamado como o grande libertador. Os deuses que tinham sido tomados das cidades circundantes foram devolvidos a seus templos locais. Não só reconheceu Ciro a Merodaque como o deus que o havia entronizado como rei da Babilônia, senão que permaneceu ali durante vários meses, para celebrar o festival do Ano Novo [5]. Aquilo foi uma excelente estratégica política para assegurar-se o apoio popular, conforme assumia o controle do vasto Império Babilônico, estendendo-se ao oeste através da Síria e da Palestina até as fronteiras do Egito.
Os assírios e babilônicos foram notórios por sua política de levar povos conquistados a territórios estrangeiros. A conseqüência de semelhante política distinguiu a Ciro como um conquistador ao qual se davam as boas-vindas. Alentou aos povos desarraigados a que voltassem a seus países de origem e a que restabelecessem os deuses em seus templos [6]. Os judeus, cuja cidade capital e cujo templo ainda jaziam em ruínas, se encontraram entre aqueles aos que beneficiou a benevolência de Ciro.
No 530, Ciro conduziu seu exército até a fronteira do norte. Enquanto invadia o país existente além do rio Araxes, ao oeste do Mar Cáspio, foi mortalmente ferido na batalha.
Cambisses levou o corpo de seu pai a Passargade, a capital da Pérsia, para dar-lhe um adequado sepultamento.
O túmulo que Ciro tinha construído para si mesmo, estava sobre uma plataforma de uma elevação de 5 m, com seis degraus que conduziam a um pavimento retangular de 13 por 15 m [7]. Ali foi depositado, num sarcófago de ouro, descansando numa mortalha de ouro lavrado. Ornamentos adequadamente elaborados, jóias custosas, uma espada persa e tapetes da Babilônia e outros luxuosos adornos foram cuidadosamente colocados no lugar do eterno descanso daquele que tinha sido criador de um grande império. Rodeando o pavimento, existia um canal, e além, uns belíssimos jardins. Uma guarda real montava vigilância perto de seu túmulo. A cada mês se sacrificava um cavalo ao distinguido herói. Dois séculos mais tarde, quando Alexandre Magno descobriu que os vândalos tinham rapinado o túmulo, ordenou a restauração do corpo, assim como dos outros tesouros [8]. Ainda hoje, o túmulo vazio é testemunha da grandeza de Ciro, que ganhou para a Pérsia seu império, embora eventualmente foi saqueado o lugar do eterno repouso que o grande Ciro tinha preparado tão elaboradamente.

• Cambisses
(530-522 a.C.). Quando Ciro abandonou a Babilônia no 538 a.C., nomeou a seu filho Cambisses para representar o rei persa nas reais procissões do Ano Novo. Devidamente reconhecido por Merodaque, Nebo e Bel, e retendo aos oficiais e dignitários da Babilônia, Cambisses ficou bem estabelecido na Babilônia com seu quartel geral em Sipar.
Com a súbita morte de Ciro em 530, Cambisses se confirmou a si mesmo rei da Pérsia.
Após ter recebido o reconhecimento de várias províncias que seu pai tinha submetido ao poder do trono, Cambisses voltou sua atenção à conquista do Egito, que ainda ficava além dos laços do império.
Amassis fazia anos que se havia antecipados aos sonhos imperialistas da Pérsia. No 547 pôde que tivesse uma aliança com Creso. Ele também fez amizades e buscou uma coalizão com os gregos.
Em seu caminho para o Egito, Cambisses acampou em Gaza, onde adquiriu camelos nabateanos [9] para a marcha de 88 km através do deserto. Dois homens que traíram a Amassis se uniram ao grupo do conquistador. Fanes, um chefe mercenário grego, desertou do Faraó e proporcionou a Cambisses uma importante informação militar. Polícrates de Samos quebrou sua aliança com Amassis para ajudar a Cambisses com tropas gregas e com barcos.
Ao chegar ao Delta do Nilo, soube que o velho Amassis tinha morrido. O novo Faraó, Samtik III, filho de Amassis, enfrentou os invasores com mercenários gregos e soldados egípcios. Na batalha de Pelusium (525 a.C.), os egípcios foram definitivamente derrotados pelos persas. Embora Samtik tentou cobrir-se na cidade de Mênfis, foi incapaz de escapar de sues perseguidores. Cambisses concedeu um tratamento favorável ao rei, porém mais tarde Samtik tentou uma rebelião e foi executado. O invasor vitorioso se apropriou dos títulos do reinado egípcio e fez que se inscrevesse seu nome nos monumentos dedicados ao farão.
Nos seguintes anos, Cambisses cultivou a amizade com os gregos, com o objeto de promover o lucrativo comércio que tinham com o Egito. Esta ação estendeu a dominação persa sobre o mais avançado e o mais rico do mundo grego [10]. Cambisses também tratou de expandir seu domínio pelo oeste até Cartago e ao sul da Núbia e a Etiópia, a base de forças militares, porém neste propósito fracassou por completo.
Deixando o Egito sob o mando de Ariandes como sátrapa, Cambisses empreendeu o regresso à Pérsia. Perto de monte Carmelo, lhe chegaram notícias de que um usurpador, de nome Gaumata, tinha-se apoderado do trono da Pérsia. A afirmação de Gaumata de ser Emerdis, outro filho de Ciro a quem Cambisses tinha previamente executado [11], perturbou tão grandemente a Cambisses que se suicidou. Por oito meses, Gaumata susteve as rédeas do reino e do governo.
O fim de seu curto reinado precipitou as revoltas em várias províncias.

• Dario I
(522-486 a.C.). Dario I, também conhecido como Dario o Grande, salvou o Império Persa naquele tempo de crise. Tendo servido no exército sob o mando de Ciro, se converteu no braço direito de Cambisses no Egito. Quando o reinado deste último terminou bruscamente no caminho do Egito para a Pérsia, Dario se precipitou para o leste. Executou a Gaumata em setembro do 522 a.C. e se firmou no trono. Três meses mais tarde, a Babilônia rebelada ficou sob seu domínio [12]. Após dois anos de dura luta, dissipou toda oposição na Armênia e na Média.
Dario voltou ao Egito como rei no 519-18 [13]. Não é conhecido o contato que teve com os judeus estabelecidos em Jerusalém. No princípio de seu reinado, garantiu a permissão para a construção do templo (Esdras 6.1; Ageu 1.1). Já que foi completado no 515 a.C., parece razoável assumir que o avanço persa através da Palestina não afetou a situação dos assuntos de Jerusalém [14]. No Egito, Dario ocupou Mênfis sem muita oposição e reinstalou a Ariandes como sátrapa.
No 523, Dario pessoalmente marchou com seus exércitos para o oeste, através do Bósforo e do Danúbio, para encontrar-se com os escitas, que vinham das estepes da Rússia [15]. Esta aventura não teve êxito; contudo, retornou para agregar a Trácia a seu império, permanecendo um ano em Sardis. Isto iniciou uma série de compromissos com os gregos. O controle persa das colônias gregas deu lugar a um conflito que finalmente se converteu num desastre para os persas. O avanço para o oeste dos persas foi bruscamente detido numa crucial derrota em Maratona, no 490 a.C.
Dario tinha conseguido êxitos suprimindo rebeliões, porém onde foi mesmo um gênio, foi na administração. O demonstrou organizando seu vasto império em vinte satrapados [16]. Para reforçar o império interiormente, promulgou leis no nome de Auramazda, o deus zoroástrico simbolizado pelo disco alado. Dario intitulou seu livro de leis "A Ordenança das Boas Normativas". Seus estatutos mostram a dependência da anterior codificação mesopotâmica, especialmente a de Hamurabi [17]. Para a distribuição a seu povo, as leis foram escritas em aramaico e em pergaminho.
Um século mais tarde, Platão reconheceu a Dario como o maior legislador da Pérsia.
Um excepcional talento para a arquitetura, estimulou a Dario a empreender a construção de grandes e suntuosos edifícios nas cidades capitais e outras partes. Acmeta, que tinha sido a capital meda em tempos passados, se converteu então no lugar favorito real de verão, enquanto que Susã serviu por eleição como residência de inverno.
Persépole, a 40 km ao sudoeste de Passargade, foi convertida na cidade mais importante de todo o Império Persa. Dario preparou um túmulo na rocha, elaboradamente construído para si mesmo, num precipício perto de Persépole. Na distante terra do Egito, promoveu a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o rei Nilo [18].
Susã, a 97 km para o norte da desembocadura do Tigre, foi centralizada para propósitos administrativos. A planície entre Coaspes e Ulai, rios do império, se converteu numa rica e fecunda zona de produção de frutas, por meio de um eficaz sistema de canais. O elaborado palácio real, começado por Dario e embelezado por seus sucessores, foi o maior monumento persa daquela cidade. de acordo com uma inscrição feita por Dario, este palácio foi enfeitado com cedros do Líbano, marfim da Índia e prata do Egito [19]. Ainda há hoje restos desta estrutura, embora sejam pouco mais que alguns bosquejos de pátios e pavimentos. A causa do excessivo calor do verão, Susã não era o lugar ideal para uma capital permanente.
Persépole, a primeira cidade do Império Persa, era a mais impressionante das capitais.
O palácio de Dario, o Taxara, foi começado por ele, apesar de ter sido ampliado e completado por seus sucessores. As colunas desta tremenda estrutura ainda nos proporcionam o testemunho da arte e da construção dos persas [20]. Persépole estava estrategicamente  fortificada por uma tripla defesa. Na cristã da "montanha da Misericórdia", sobre a qual foi construída esta grande capital, havia uma fileira de muralhas e de torres. Ales delas, estava a imensa planície conhecida atualmente como Marv Dasht.
A mais notável entre as inscrições persas é o monumento de rocha lavrada perto de Bisitum. O grande relevo, representando a vitória de Dario sobre os rebeldes, está suplementado por três inscrições cuneiformes em persa antigo, acádio ou babilônico, e elamita. Devido a que o painel da vitória foi talhado sobre a superfície de um precipício de 152 mas por acima da planície, com somente uma estreita borda embaixo dele, a inscrição tem permanecido sem ser lida por mais de dois milênios. Em 1835, Sir Henry C. Rawlinson copiou e descifrou este registro, assegurando aos modernos eruditos a clave para descifrar a linhagem babilônica, e incrementando a compreensão do persa [21]. Uma cópia aramaica desta inscrição entre os papiros descobertos em Elefantina, no Egito, indica que foi amplamente difundida entre o Império Persa.

• Xerxes
(486-465 a.C.). Xerxes foi o herdeiro eleito para o trono persa quando morreu Dario, no ano 486 a.C.
durante doze anos tinha servido como vice-rei na Babilônia sob o governo de seu pai. Quando se encarregou do Império, se encontrou com projetos de edifícios sem terminar, reformas religiosas e rebeliões em várias partes do domínio, que esperavam sua atenção.
Entre as cidades em rebelião que receberam severo castigo sob o mando de Xerxes, estava Babilônia. Ali, no 482 a.C., as fortificações erigidas por Nabucodonosor foram destruídas, o templo de Esagila foi desfeito e a estatua maciça de ouro de Merodaque, de 363 kg de peso, foi tirada de seu lugar e fundida em lingotes. Babilônia perdeu sua identificação ao ser incorporada com a Assíria [22]. Embora vitalmente interessado em continuar o programa de construções de Persépole, Xerxes condescendeu aos insistentes conselhos de seus assessores e contra seu gosto dirigiu seus esforços e energias à expansão da fronteira noroeste. À cabeça daquele enorme exército persa avançou para a Grécia com o apoio de sua armada naval composta de unidades fenícias, gregas e egípcias. O exército sofreu reveses nas Termópilas, a frota foi derrotada em salarais, e finalmente os persas foram decisivamente desagregados em Platéia e no cabo Micale.
Em 479, Xerxes se retirou à Pérsia, abandonando a conquista da Grécia.
Em seu país, Xerxes acabou com seu programa de construções. Em Persépole completou o Apadana, onde treze dos 72 pilares que sustentavam o teto daquele espaçoso auditório ainda continuam em pé. Na escultura, Xerxes desenvolveu o melhor da arte persa. Isto ficou evidenciado ao decorar a escadaria do Apadana com figuras esculpidas dos guardas de Susã e da Pérsia.
Embora Xerxes foi inferior como líder militar e será sempre lembrado pela sua derrota na Grécia, superou aos seus antecessores como construtor. Deve-se lhe conceder o crédito de que Persépole se convertesse na mais sobressalente cidade dos reis persas, especialmente pela escultura e a arquitetura.
No 465 a.C., Xerxes foi assassinado por Artabano, o chefe da guarda do palácio. foi sepultado no túmulo entalhado na rocha que tinha escavado perto do de Dario o Grande.

• Artaxerxes I
(464-425 a.C.). Com o apoio do assassino Artabano, Artaxerxes Longímano ocupou do trono de seu pai. Após fazer desaparecer a outros aspirantes ao trono, suprimiu com êxito diversas rebeliões no Egito (460 a.C.) e uma revolta na Síria (448). Os atenienses negociaram um tratado com ele, mediante o qual ambas partes convieram em manter um status quo. Durante seu reinado, Esdras e Neemias marcharam a Jerusalém com a aprovação do rei para ajudar os judeus.
a dinastia caiu em declive sob os reis seguintes: Dario II (423-404 a.C.) e Artaxerxes II (404-359 a.C.). Artaxerxes III (359-338 a.C.) deu lugar a um ressurgir da unidade e da força do império, porém o fim estava preste a chegar. Durante o governo de Dario III, Alexandre Magno, com táticas militares superiores, desfez o poderio do exército persa (331) e incorporou o Próximo Oriente a seu reino.



[1] Ernstn Herzfeld "Archaeological History of Irán" (1935), p. 8. Ver também R. Ghirhman, "Irán from íhe Earliest Times to the Islamic Conquest", trad. do francês. (Baltimore: Harmondsworth, Penguin Books, 1954.)
[2] Pérsia foi o verdadeiro primeiro império mundial. Diferentemente dos precedentes impérios, Pérsia incluiu muitas e diversas raças, vários grupos semíticos, medos, armênios, gregos, egípcios, índios e os próprios persas. Os fatores que capacitaram os persas para sustentar essa diversidade num esboço de unidade, por quase 200 anos, são: 1) uma organização efetiva; 2) um forte exército; 3) a tolerância persa; e 4) um excelente sistema de vias de comunicação.
[3] Olmstead, op. cít., p. 41. Ver também Herodoto i. 71 e ss.
[4] Olmstead, op. cít., pp. 46-49.
[5] Pritchard, op. cit., pp. 315-316.
[6] O cilindro de Ciro, em Ibid., pp. 315-316. Aparentemente, Astiages da Pérsia, Creso da Líbia e Nabônido da Babilônia, todos foram bem tratados por Ciro. De acordo com Robert William Rogers, History oí Ancient Persia (New York, 1929), p. 49, Creso foi designado à Barene, na Média, onde lhe foi concedido um tributo e uma consignação real num estado semi-régio, com uma guarda de 5000 homens de cavalaria e uma infantaria de 10.000 homens.
[7] Ver Ibid., por 69, para uma bibliografia sobre o túmulo de Ciro. Melhor discussão, de acordo com Rogers, está em "Persia, Past and Present", por A. V. Williams Jackson, pp. 293.
[8] Arrian, Aiiabasis 6, 29, traduzida por E. I. Robson, em Loeb Classical Library (1929-1933), II, 197.
[9] De acordo com Olmestead, op. cit., p. 88,, esta é a primeira menção dos nabateanos. Ver Herodoto, III, 4 ss.
[10] Olmstead, op. cit., p. 88.
[11] Rogers, op. cit., p. 71.
[12] Para outros dados, ver Parker y Dubbcrstein, op. cit, p. 13.
[13] Ver R. A. Parker "Darius and His Egyptian Campaign", American Journal, Language and Literatura LVIII (1941), 373 ff.
[14] Olmstead, op. cit., p. 142, utiliza o argumento do silêncio para assumir que Zereutubel se rebelou e foi executado, já que não está subseqüentemente mencionado em nenhum registro. Albright, The Biblical Períod, p. 50, afirma que não há razão para supor que fosse desleal a Dario.
[15] Ver Rogers, op. cit., p. 118.
[16] Para ulterior discussão, ver "Cambridge Ancíent History", IV, 194 y ss.
[17] Para uma comparação das leis de Dario e do código de Hamurabi, ver Olmstead, op. cit., pp. 119- 134.
[18] Ver R. G. Kent, en Journal of Near Eastern Studies, pp. 415-421.
[19] Ver J. M. Unvala., A Survey of Persian Art, Vol. I., p. 339.
[20] Persépole foi escavada pelo Oriental Institute of the University of Chicago en 1931-34 y en 1935- 39. Para um informe sobre a primeira expedição, ver Ernst Horzfeld, op. cit., ou ver Ernst Schdmit, The Treasury of Persépolis and Olher Discoveries Achiemenlans, no Oriental Institute Communications, 21 (1939), 14ss.
[21] Ver H. C. Rowlinson, The Persian Cuneiform Inscríption at Behistun (1846). Cameron fez novas fotografias. Ver Journal of Near Eastern Studies 115 y ss.
[22] Ver Olmstead, op. cít., pp. 236-237.


Fonte: Samuel J. Schultz - A História de Israel no AT


Pesquisa: Pr.Charles Maciel Vieira