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sexta-feira, 20 de maio de 2011

TORTURADO POR AMOR A CRISTO - 5ªParte-RICHARD WURMBRAND



Os comunistas têm cometido horrores e ainda os cometem, porém "as muitas águas não poderiam apa­gar o amor, nem os rios afogá-lo. O amor é forte como a morte, e duro como a sepultura, o ciúme". Como a sepultura insiste em reclamar todos para si — ricos e pobres jovens e velhos, homens de todas as raças, na­ções e convicções políticas, santos e criminosos — assim o amor a todos abraça. Cristo, o Amor Encarnado, jamais cessará de amar, até conquistar os comunistas também.
Um ministro foi jogado em minha cela. Estava quase morto. O sangue escorria-lhe da face e do corpo. Havia sido espancado horrivelmente. Nós o lavamos. Alguns prisioneiros amaldiçoavam os comunistas. Gemendo, ele dizia: "Por favor, não os amaldiçoem! Conservem-se calados! Desejo orar por eles!”.

Como podíamos ter alegria, mesmo presos

Quando olho retrospectivamente para os catorze anos que passei preso, recordo-me de que, algumas vezes, tive momentos alegres. Outros prisioneiros e até os guardas muitas vezes se espantavam de que os crentes, sob tão terríveis circunstâncias, pudessem ser alegres. Não nos podiam impedir de cantar, apesar de sermos açoitados por isso. Imagino que os rouxinóis também cantariam, embora soubessem que depois de cantar poderiam ser mortos. Os crentes na prisão dançavam de alegria. Como podiam ser alegres sob tão trágicas con­dições?
Muitas ocasiões, no cárcere, meditava nas palavras de Jesus a Seus discípulos: "Bem-aventurados os vossos olhos porque vêem" (Mat. 13:16). Os discípulos tinham regressado de uma viagem pela Palestina, na qual ha­viam visto horrores. A Palestina era um país oprimido. Por toda parte havia a terrível miséria de um povo tiranizado. Os discípulos haviam encontrado fome, pra­gas, doenças e infortúnios. Entraram em casas das quais patriotas tinham sido levados presos, deixando atrás de si pais ou esposas a chorar. Não era um mundo aprazível de se ver.
Entretanto Jesus disse: "Benditos os olhos que vêem o que vós vedes". Fora assim porque não tinham visto só sofrimento. Também viram o Salvador de todos, o Consumador do bem-último, o alvo que a humanidade deve atingir. Pela primeira vez larvas nojentas, lagartas que se arrastam sobre folhas entenderam que, depois desta existência miserável, há uma vida de lindas bor­boletas multicores, capazes de voar de flor em flor. Tal era a nossa alegria também!
Havia ao meu redor homens como Jó, alguns muito mais aflitos que ele. Eu, porém, sabia o fim da his­tória de Jó: como recebeu em dobro tudo o que tivera antes... Tinha ao meu redor outros, como Lázaro, fa­mintos e cheios de feridas sem tratamento algum. Mas eu sabia que os anjos os levariam ao seio de Abraão. Eu os via como seriam no futuro. Via, no mártir mo­ribundo, sujo e frágil perto de mim, o santo que esplen­didamente seria coroado logo mais.
Vendo, porém, os homens desta maneira — não como eles eram, mas como seriam — também podia descobrir nos perseguidores, como Saulo de Tarso, futuros Paulos. Alguns dos quais já realmente se tornaram como Paulo. Oficiais da Polícia Secreta, diante dos quais testemunha­mos, tornaram-se crentes e se regozijaram posteriormente em sofrer na prisão por terem encontrado nosso Cristo. Nos carcereiros que nos açoitavam, viamos a possibilidade de serem outros tantos carcereiros de Filipos, como aquele que, depois de açoitar São Paulo, converteu-se.
Sonhávamos que logo nos perguntassem: "Que farei para ser salvo?" Naqueles que zombavam quando os crentes eram colocados em cruzes, besuntados de fezes e urina, víamos a turbamulta do Gólgota que, logo mais, batia nos peitos pelo temor de haver cometido pecado.
Foi na prisão que encontramos esperança de que os comunistas se salvariam. Foi lá que desenvolvemos nosso senso de responsabilidade para com eles. As torturas que nos infligiam ensinaram-nos a amá-los.
Grande parte dos meus familiares foi assassinada. Foi em minha própria casa que o assassino deles se con­verteu. Aquele foi, aliás, o lugar mais propício. Foi assim que, em prisões comunistas, nasceu a idéia de uma Mis­são Cristã em favor deles.
Deus vê as coisas por um prisma diferente do nosso, da mesma forma como vemos diferente do modo de ver de uma formiga. Do ponto de vista humano, é de fato uma coisa horrível ser amarrado a uma cruz e ter o corpo besuntado de fezes e urina. Entretanto a Bíblia chama os sofrimentos dos Mártires de "leves aflições". Passar catorze anos preso foi muito para mim. A Bíblia chama isto "um momento, que nos traz um peso eterno de glória". O que nos dá o direito de supor que os bár­baros crimes praticados pelos comunistas, que para nós são inescusáveis, contra os quais temos com justiça de lutar ao máximo, são mais leves à vista de Deus do que aos nossos olhos. A tirania deles, que já durou meio século, pode ser para Deus, diante de Quem mil anos são como um dia, um momento apenas de extravio. Eles ainda têm a possibilidade de serem salvos.
A Jerusalém Celestial é mãe e tem o amor de mãe.
Os portões celestiais não estão fechados para os comunistas. Podem arrepender-se, como quaisquer outras pessoas.    Devemos chamá-los ao arrependimento.
Só o amor poderá modificar os comunistas (amor que tem de ser claramente diferente de complacência com o Comunismo, praticada por tantos líderes eclesi­ásticos). O ódio cega. Hitler era anticomunista, mas odiava. Por isso, em lugar de vencê-los, ajudou-os a con­quistar um terço do mundo.
Com amor, planejamos quando na prisão um traba­lho missionário entre os comunistas.
Primeiramente pensamos nos dirigentes comunistas.
Alguns diretores de Missões parece que estudaram muito pouca História Eclesiástica. Como foi a Noruega conquistada para Cristo? Conquistando-se o Rei Olaf. A Rússia a princípio teve o Evangelho quando seu rei Vladimir foi ganho. A Hungria foi conquistada ganhando-se Santo Estevão, seu rei. O mesmo aconteceu com a Polônia. Na África, aconteceu que o chefe da tribo foi ganho para Cristo, toda a tribo o seguiu. Nós organi­zamos Missões para pessoas comuns, da plebe, que podem tornar-se muito bons crentes, mas que não têm influên­cia para modificar o estado de coisas.
Temos de conquistar dirigentes: personalidades po­líticas, econômicas, cientistas, artistas. São eles os en­genheiros de almas. Ganhando-os, se ganha o povo que dirigem, e sobre o qual têm influência.
Do ponto de vista missionário, o Comunismo tem uma vantagem que não é encontrada em outros siste­mas sociais.   É mais centralizado.
Se o Presidente dos Estados Unidos se convertesse ao Mormonismo, só por este fato a América não se tor­naria mórmon. Mas se Mao Tsé-Tung se convertesse ao Cristianismo — ou Breshnev ou Ceaushescu — seus países inteiros poderiam ser conquistados. Tão grande é o impacto da influência dos Líderes.
Mas, pode um líder comunista converter-se? Certa­mente, pois é tão inseguro e infeliz quanto suas vítimas. Quase todos os líderes comunistas da Rússia ou foram colocados em prisão, ou executados por seus próprios camaradas.   O mesmo aconteceu na China.
Até Ministros do Interior como Iagoda, Iejov e Béria, que pareciam ter todo o poder nas mãos, findaram como os mais reles contra-revolucionários. Uma bala na ca­beça e acabaram-se. Recentemente, Shepelin, Ministro do Interior da União Soviética, e Rankovic, Ministro do Interior da Iugoslávia, foram jogados fora como trapos imundos.

Como podemos atacar o Comunismo espiritualmente

O sistema comunista não torna ninguém satisfeito, nem mesmo os que dele se aproveitam. Até estes tremem ante a possibilidade de alguma noite ser levados pela camioneta da Polícia Secreta, porque a liderança do Partido mudou.
Conheci muitos líderes comunistas pessoalmente. São homens oprimidos; só Jesus pode dar-lhes paz.
Ganhar os líderes comunistas para Cristo pode sig­nificar salvar o mundo de uma destruição nuclear, ou salvar a humanidade da fome, devido ao fato de pre­sentemente grande parte de sua receita ser aplicada na aquisição de armamentos custosos. Ganhar os líderes comunistas pode significar o fim da tensão internacio­nal. Ganhar os líderes comunistas pode significar encher de alegria, a Cristo e a seus anjos. Pode significar a vi­tória da Igreja. Em todas as áreas onde os Missionários trabalham com tanta dificuldade, como Nova Guiné, ou Madagascar, tudo se tornaria mais fácil, se apenas os líderes comunistas fossem conquistados, porque isto daria ao Cristianismo um impulso totalmente novo.
Conheci pessoalmente muitos líderes comunistas convertidos. Eu mesmo, quando jovem, fui ateu mili­tante. Ateus e comunistas convertidos amam muito a Cristo, porque pecaram muito.


É necessário estratégia no trabalho missionário. Do ponto de vista da salvação todos são iguais; do ponto de vista da estratégia missionária, nem todos são iguais. É mais importante ganhar um homem de grande influ­encia que poderá levar depois milhares ao conhecimento do Evangelho, do que falar a um silvícola, assegurando, para ele só, a salvação. Por esta razão Jesus não es­colheu um lugar obscuro onde encerrar Seu ministério, e sim Jerusalém, o centro espiritual do mundo. Por esta mesma razão Paulo fez tanto esforço por estar em Roma.
A Bíblia afirma: "A semente da mulher esmagará a cabeça da serpente". Mas nós fazemos cócegas na barriga da serpente, provocando-lhe risadas. Sua ca­beça encontra-se em alguma parte, entre Moscou e Pequim, não em Madagascar ou na Tunísia. O mundo comunista deve ser o mais visado pelos líderes da Igreja e diretores de Missões, bem como por todo crente sensato.
Devemos renunciar os trabalhos de rotina. Está escrito: "Maldito aquele que fizer o trabalho do Senhor relaxadamente". Um ataque frontal aos comunistas, pela Igreja, é necessário.
As guerras só podem ser vencidas pela ofensiva, e nunca por estratégias de defesa. Com relação ao Comu­nismo, a Igreja até o presente não saiu da defensiva, perdendo um país após outro para ele.
Isto tem de ser modificado imediatamente em toda a Igreja. Um Salmo afirma que Deus despedaça as barras de ferro.   A Cortina de Ferro é coisa diminuta para Ele.
A Igreja Primitiva trabalhou às ocultas e ilegal­mente, porém triunfou. Devemos mais uma vez aprender a trabalhar desta maneira.
Até que chegasse o Comunismo, nunca entendi por que tantas pessoas do Novo Testamento eram chama­das por sobrenomes: Simão, chamado Niger, João, cha­mado Marcos, e outros. Usamos nomes secretos em nosso trabalho, hoje, nos países comunistas.
Nunca entendi antes por que Jesus, quando mandou preparar a última Ceia, não deu um endereço, mas declarou: "Ide à cidade e vos sairá ao encontro um homem trazendo um cântaro de água". Agora entendo. Também damos senhas, sinais convencionais de reco­nhecimento na Igreja Subterrânea. .
Se concordarmos em agir da mesma forma — vol­tando aos métodos do Cristianismo Primitivo — pode­remos trabalhar eficientemente para Cristo nos países comunistas.
Mas quando me encontrei com os líderes da Igreja do Ocidente, em lugar de encontrar amor para com os comunistas, o que teria encaminhado a formação de uma Missão para os países dominados por eles, deparei-me com uma orientação favorável ao Comunismo. Não en­contrei a compaixão do Bom Samaritano para com as almas perdidas da casa de Karl Marx.
Um homem crê realmente, não no que recita no seu credo, mas naquilo em favor do que está pronto para morrer.
Os crentes da Igreja Subterrânea têm provado que estão prontos a morrer pela fé que professam. Agora mesmo estou envolvido em um trabalho que poderá sig­nificar o meu reencarceramento em país comunista, novas torturas e morte, porque dirijo uma Missão Secreta, tra­balhando atrás da Cortina de Ferro e assumindo todos os riscos.   Creio nas coisas que escrevo.
Tenho o direito de perguntar: Os líderes eclesiás­ticos da América, que fazem amigos à custa do Co­munismo, estariam prontos a morrer por esta sua fé? Quem os impede de deixar os altos postos que ocupam no Ocidente, para vir a ser pastores oficiais no Oriente, cooperando ali — in loco — com os comunistas? A prova de tal fé não foi dada ainda por nenhum líder da Igreja Ocidental.
As palavras do homem nasceram de sua necessi­dade de entender-se com os companheiros nas pesca­rias, caçadas, e depois na produção comum das coisas necessárias à vida, e da necessidade de expressarem seus sentimentos entre si. Entretanto, não existem palavras humanas que possam expressar de maneira adequada os mistérios de Deus e as sublimidades da vida espiritual.
Igualmente não existem palavras que possam ex­pressar as profundezas de uma crueldade diabólica. Po­derá alguém expressar em palavras o sofrimento que alguém sentia quando estava prestes a ser lançado numa fornalha pelos nazistas, ou quando via um filho seu nela ser atirado? De igual modo é impossível tentar des­crever os sofrimentos que os crentes já suportaram e ainda hoje enfrentam nos países comunistas.
Estive na prisão com Lucretiu Patrascanu, o homem que promoveu o estabelecimento do Comunismo na Ro­mênia. Seus camaradas recompensaram-no colocando-o na prisão. Apesar de ser um homem mentalmente sadio, colocaram-no em um hospital de loucos, até que termi­nou enlouquecendo também. Fizeram o mesmo com Anna Pauker, ex-secretária de Estado. Os crentes mui­tas vezes também recebem esse tipo de tratamento. São submetidos a choques elétricos, vestem camisa de força.
O mundo está horrorizado com o que está acon­tecendo nas ruas chinesas. A vista de todos, os guardas vermelhos exercem terror. Agora, tentem imaginar o que não acontece a um crente em uma prisão chinesa, onde ninguém os está presenciando!
A última notícia que tivemos é que um escritor evangélico chinês de renome e outros crentes, os quais se recusaram a negar sua fé, tiveram suas orelhas, lín­guas e pernas cortadas.
Entretanto, o que os comunistas fazem de pior não são as torturas e os assassínios. Falsificam completa­mente a mente das pessoas e envenenam a mocidade e as crianças. Colocam seus homens em posição de lide­rança nas Igrejas para dirigir os crentes e destruir as mesmas Igrejas. Ensinam a juventude não apenas a des­crer de Deus e de Cristo, como até mesmo a odiar estes nomes.
Com que palavras poderíamos expressar a tragédia em que se envolve um mártir cristão que, voltando ao seu lar depois de anos de prisão, é escarnecido pelos seus próprios filhos, os quais durante aquele tempo de sua ausência se tornaram ateus militantes?

Este livro está sendo escrito não tanto com tinta mas com o sangue de corações que sangram

Como nos tempos de Daniel os três jovens que foram colocados na fornalha depois que de lá saíram não chei­ravam a fogo, da mesma maneira os crentes que esti­veram em prisões de comunistas não têm qualquer res­sentimento contra eles.                                                   
Uma flor, que o leitor esmague sob os pés, recom­pensa-lhe dando seu perfume. De igual medo os crentes torturados pelos comunistas, recompensam-nos com amor. Levamos muitos dos nossos carcereiros a Cristo. E estamos dominados por um só desejo: dar aos co­munistas, que nos fizeram sofrer, o melhor que temos, a Salvação que vem do nosso Senhor Jesus Cristo.
Não tive o privilégio, que muitos dos meus irmãos na fé tiveram, de morrer mártir' na prisão. Fui liber­tado e até pude sair da Romênia para o Ocidente.
No Ocidente encontrei muitos líderes eclesiásticos de sentimento totalmente contrário àquele existente e pre­dominante na Igreja Subterrânea, tanto por trás da Cortina de Ferro, como da de Bambu. Muitos crentes ocidentais não têm amor pelos comunistas. Prova disto é que não se interessam pela salvação dos que se encon­tram naqueles países. Têm missões para evangelizar ju­deus, muçulmanos e budistas, porém não têm missões para os comunistas! Não os amam, do contrário teriam, há muito tempo criado tal missão, como Carey, por amor aos indianos, e Hudson Taylor, por amor aos chi­neses, criaram missões para eles.
Não é bastante, porém, que não amem os comunistas e nada façam por conquistá-los para Cristo. Por sua complacência e negligência, e às vezes acumpliciando-se de fato com os comunistas, alguns líderes da Igreja Oci­dental incentivam a incredulidade deles. Ajudam-nos a introduzir-se nas igrejas ocidentais e a assumir li­derança nelas e no mundo. Deixam os crentes despercebidos dos perigos do Comunismo.
Não amando aos comunistas e nada fazendo por con­quistá-los para Cristo (sob o pretexto de que não lhes é permitido fazê-lo, como se os primeiros cristãos pe­dissem permissão a Nero para divulgar o Evangelho), eles também não amam a seus próprios rebanhos. Por­que se nós não conquistarmos os comunistas para Cristo, eles conquistarão o Ocidente e, também aqui, desarraigarão o Cristianismo.
As lições da História são ignoradas
Nos primeiros séculos houve uma Igreja florescente no norte da África. De lá procederam Santo Agostinho, São Cipriano, Santo Atanásio e Tertuliano. Os crentes de lá apenas negligenciaram uma coisa: conquistar os maometanos para Cristo. O resultado foi que os maometanos invadiram o norte da África e de lá extirparam, durante séculos, o Cristianismo. A África do Norte ainda hoje pertence aos maometanos, que são considerados, pela missão evangélica, como "bloco dos Inconversíveis".
Aprendamos essa lição da História.
Na época da Reforma, os interesses religiosos de Huss, Lutero e Calvino coincidiram com os interesses dos povos da Europa, os quais ansiavam verem-se livres do jugo papal que. na época, representava opressão po­lítica e poder econômico. De igual modo hoje, o inte­resse da Igreja Subterrânea em divulgar o Evangelho entre os comunistas e suas vítimas coincide com o vital interesse de todos os povos livres por continuarem livres.
Não há poder político que possa derrubar o Comu­nismo.    Os comunistas têm armas nucleares, atacá-los militarmente significaria o começo de uma outra Guerra Mundial, com centenas de milhares de vítimas. Também muitos líderes ocidentais receberam lavagem cerebral e nem mesmo desejam derrubar o sistema comunista Dizem isso freqüentemente. Desejam que a toxicomania, o banditismo, o câncer e a tuberculose desapareçam, mas o Comunismo não, embora este já tenha matado muito mais gente do que todas essas doenças juntas.
Hya Ehrenburg, escritora soviética, diz que se Stalin durante toda a sua vida não tivesse feito outra coisa senão escrever os nomes de suas vítimas inocentes, sua vida teria sido curta para concluir essa tarefa. Kruschev afirmou no XX Congresso do Partido Comunista: "Stalin liquidou com milhares de comunistas honestos e ino­centes... Dos cento e trinta e nove membros e candi­datos do Comitê Central, que haviam sido escolhidos no XVII Congresso, noventa e oito, isto é, setenta por cento, foram mais tarde presos e fuzilados".
Agora imaginem o que ele fez aos crentes!
Kruschev renegou a Stalin, mas continuou a fazer as mesmas coisas. De 1959 para cá, metade das Igrejas da União Soviética, que ainda estavam abertas, estão hoje fechadas.
Na China existe uma nova onda de barbarismo, pior que a do período stalinista. O trabalho franco, desim­pedido das Igrejas cessou completamente. Na Rússia e na Romênia há uma onda de novos encarceramentos. (Acabamos de receber Informação de que na Rússia está havendo encarceramento em massa dos crentes).
Com terror e falsidade, em países com um bilhão de habitantes, toda a nova geração é criada com ódio por tudo quanto é ocidental, especialmente para com o Cris­tianismo.
Não é fora do comum ver-se um guarda vermelho parado em frente de Igrejas, atento a crianças E aque­las que são encontradas querendo dirigir-se a elas le­vam palmadas e são mandadas embora.   Os futuros destruidores do Cristianismo ocidental são cuidadosa e sis­tematicamente preparados para essa obra.
Existe apenas uma força que pode derrubar o Co­munismo. É a mesma que fez com que os Estados Cris­tãos tomassem o lugar do Império Romano pagão, força que transformou em cristãos os selvagens teutões e os "Vikings", e que desbancou a sangrenta Inquisição. Esta força é o poder do Evangelho, representado pela Igreja Subterrânea existente em todos os países comu­nistas.

Sustentar essa Igreja e ajudá-la não é apenas uma questão de identificação com os irmãos que sofrem. Não significa vida ou morte para o país da pessoa que está lendo estas páginas e para suas Igrejas. Sustentar essa Igreja não é apenas do interesse dos cristãos livres, mas deveria também ser a política de todos os governos livres.


A Igreja Subterrânea já tem conquistado vários líderes comunistas para Cristo. Gheorghiu Dej, primeiro Ministro da Romênia, morreu crente, depois de con­fessar seus pecados e modificar sua vida pecaminosa. Nos países comunistas existem membros do governo que são crentes às ocultas. Isto pode propagar-se. Então poderemos esperar grande modificação na política de alguns governos comunistas — não modificações como aquelas de Tito e Gomulka, depois das quais o mesmo sistema ditatorial de um partido ateu e cruel continuaram — mas uma modificação em favor do Cristianismo e da liberdade.
Oportunidades excepcionais existem, presentemente, para tanto.
Os comunistas, que muitas vezes são tão sinceros em suas crenças quanto os cristãos na sua, estão passando por grande crise.
Haviam crido que o Comunismo fomentaria uma irmandade das nações. Agora, porém, vêem que as na­ções comunistas brigam, umas com as outras, como cães.
Haviam realmente crido que o Comunismo implan­taria no mundo um paraíso terrestre, oposto ao que consideram ilusório, o paraíso celestial. E agora estão passando fome. Trigo tem de ser importado de países capitalistas.
Os comunistas creram em seus líderes. Agora lêem nos seus próprios jornais que Stalin assassinou gente em massa e Kruschev foi um idiota. O mesmo acontece com seus heróis nacionais, como Rakosi, Gero, Anna Pauker, Rankovici e tantos outros. Os comunistas não mais crêem na infalibilidade de seus líderes. São como os católicos que não mais crêem no Papa!
Existe um vazio no coração dos comunistas, que só poderá ser preenchido por Cristo. O coração humano, por sua própria natureza, busca a Deus. Existe um vácuo espiritual em cada pessoa, enquanto não é pre­enchido por Cristo. Isto é também verdade com relação aos comunistas. No Evangelho existe uma força de amor que pode também apelar para eles. Já vi isto acontecer.   Sei que pode ser realizado.
Cristãos — ridicularizados e torturados pelos comu­nistas — já esqueceram e perdoaram o que lhes foi feito pessoalmente e a seus familiares. Fazem o possível para ajudá-los a vencer a crise e encontrar o caminho para Cristo.   Para este trabalho necessitam de nossa ajuda.
E não apenas isto. O amor cristão é sempre uni­versal.   Com os cristãos não há parcialidade.
Jesus afirmou que o sol, criação de Deus, nasce para todos, bons e maus.   O mesmo se diga do amor cristão.
Os líderes evangélicos do Ocidente, que mostram amizade para com os comunistas, justificam essa ati­tude com o ensinamento de Cristo, de que devemos amar aos nossos inimigos. Jesus, porém, nunca afirmou que devíamos amar somente aos nossos inimigos, esquecendo os nossos irmãos.
Esses líderes mostram seu amor comendo e bebendo com  aqueles cujas  mãos  estão  manchadas  do  sangue dos cristãos martirizados, em lugar de lhes apresentarem as boas novas de Cristo. E aqueles que são oprimidos pelos comunistas são esquecidos.   Não são amados.
As Igrejas Evangélicas e Católicas da Alemanha Ocidental deram nos últimos sete anos mais de 125 mi­lhões de dólares para os necessitados. Os crentes ame­ricanos dão ainda mais.
Existem muitas pessoas famintas, mas não posso imaginar pessoas mais famintas do que os mártires cristãos, ou que mais façam jus à ajuda dos cristãos livres. Se as Igrejas da Alemanha, da Inglaterra, da América e dos países escandinavos levantam tanto di­nheiro para ajudar, essa ajuda deve visar a todos os necessitados, mas primeiramente os mártires cristãos e suas famílias.                                                                    
Será que isto acontece presentemente?
Fui resgatado por organizações evangélicas, o que prova que cristãos podem ser resgatados. Entretanto sou o único caso de pessoa resgatada no meu país por evangélicos. O fato de meu resgate vem acusar as or­ganizações cristãs do Ocidente de negligenciarem o cumprimento de seu dever em outros casos.
Os primeiros cristãos perguntaram a si mesmos se a nova Igreja era apenas para os judeus e não para os gentios também. A pergunta recebeu a resposta cor­reta. De uma outra forma o problema reapareceu no Século XX. O Cristianismo não é apenas para o Ocidente. Cristo não pertence apenas à América, à Inglaterra e a outros países democráticos. Quando Ele foi crucificado, uma de Suas mãos apontava para o Ocidente e a outra para o Oriente. Ele deseja ser o Rei não apenas dos judeus, mas também dos gentios, Rei dos comunistas por igual, e não apenas dos ocidentais. Jesus disse: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura".
Ele derramou o Seu sangue por todos, e todos devem ouvir e crer no Evangelho.
O que nos dá mais ânimo de continuar a pregar o Evangelho nós países comunistas é que lá. aqueles que se tornam crentes são cheios de amor e zelo. Nunca encontrei um só crente russo que não fosse fervoroso. Jovens ex-comunistas podem tornar-se excelentes discí­pulos de Cristo.
Cristo ama aos comunistas e deseja libertá-los do Comunismo, como ama a todos os pecadores e deseja libertá-los do pecado. Alguns líderes eclesiásticos do Ocidente assumem, em vez da atitude correta, uma outra: condescendem com o Comunismo. Favorecem o pecado, auxiliam o Comunismo a triunfar e prejudicam, com isto, a salvação dos comunistas como de suas vítimas.

O que encontrei quando saí da prisão

Quando libertado da prisão, outra vez com minha esposa, ela me perguntou quais seriam os meus planos para o futuro. Respondi: "O ideal que tenho diante de mim é uma vida de reclusão espiritual". Ao que ela me retrucou haver tido o mesmo pensamento.
Havia sido multo dinâmico em minha mocidade. A prisão, porém, e especialmente os anos de confinamento em solidão haviam-me tornado um homem meditativo e contemplativo. Todas as tempestades do meu coração haviam-se acalmado. Não me importava mais com o Comunismo, nem mesmo o notava. Era como se estivesse sendo abraçado pelo Noivo Celestial. Orava por aqueles que nos haviam atormentado e podia amá-los de todo o meu coração.
Eu tivera muito pouca esperança de que algum dia pudesse ser libertado. Quando, porém, me ocorria pen­sar no que faria, caso fosse libertado, sempre admitia a idéia de retirar-me para alguma parte, em lugar ermo, e a continuar a vida de agradável união com o Noivo Celestial.
Deus é "a Verdade".   A Bíblia é a "verdade sobre a Verdade".   Teologia é a "verdade sobre a verdade acerca da Verdade". Fundamentalismo é a "verdade sobre a verdade acerca da verdade sobre a Verdade". E o povo crente vive destas muitas verdades sobre a Verdade, e por causa disto não tem "a Verdade". Famintos, espan­cados e narcotizados havíamos esquecido a Teologia e a Bíblia. Havíamos esquecido as "verdades sobre a Ver­dade". Desta maneira vivíamos apenas da "VERDADE". Está escrito: "O Filho do Homem virá na hora em que não pensais e no dia em que não sabeis". Não podíamos mais pensar. Nas horas mais escuras de tormentos o Filho do Homem vinha a nós, fazendo as paredes da prisão brilhar como diamantes e enchendo as celas de esplendor. Em algum lugar, bem distante, estavam os torturados, abaixo de nós, na esfera do corpo. Os es­pírito, porém, regozijava-se no Senhor. Não trocaríamos estas alegrias pelos prazeres dos palácios reais.
Lutar contra alguém ou alguma coisa? Nada estava mais longe da minha mente do que isso. Não desejava fazer guerra, mesmo que fosse justa. Preferiria antes construir Templos vivos para Cristo. Foi com a espe­rança de futuros anos de sossego e contemplação que deixei o cárcere.
No mesmo dia, porém, depois de libertado, deparei-me com aspectos do Comunismo mais horrendos do que todas as torturas da prisão. Um após outro encon­trei-me com eminentes pastores e pregadores de várias denominações e mesmo bispos, os quais simplesmente confessaram, com grande tristeza, que eram informan­tes da Polícia Secreta, em prejuízo do próprio rebanho deles. Perguntei-lhes se estavam preparados para deixar de ser informantes, mesmo com o risco de serem presos. Todos responderam "Não" e explicaram que não era temor por suas próprias pessoas que os impedia. Conta­ram-me novos acontecimentos nas Igrejas, coisas que não existiam mesmo antes do meu aprisionamento — que recusar ser informantes poderia significar o fecha­mento de uma Igreja.
Em todas as cidades existe um representante do encarregado do Governo para a fiscalização dos "Cultos". Ê um homem da Polícia Secreta.   Tem o direito de intimar qualquer padre ou pastor, sempre que entender, para que lhe diga quem tem estado na Igreja, quem comunga freqüentemente, quem é zeloso por sua reli­gião, quem é evangelista pessoal, o que o povo crê e etc. Quem não responde é demitido, e outro "ministro" é posto em seu lugar, que preste melhores informações. Quando o representante do Governo não descobre subs­tituto que sirva (o que quase sempre acontece), fecha a Igreja.
Muitos ministros deram informações à Polícia Se­creta com a diferença de que alguns o fizeram com relutância, tentando ocultar certas coisas, enquanto outros criaram o hábito de informar, ficando de consci­ência endurecida. Outros ainda adquiriram paixão por isto e contavam mais do que lhes era solicitado.
Ouvi confissões de filhos de mártires crentes, que tinham sido obrigados a dar informações sobre as fa­mílias nas quais haviam sido recebidos bondosamente. De outra, maneira eram ameaçados de não poderem continuar seus estudos.
Fui a um Congresso Batista, realizado sob a égide da bandeira vermelha. Os comunistas é que resolveram quais seriam os seus líderes a serem "eleitos".
Sabia que agora, na direção de todas as Igrejas Oficiais, haveria homens nomeados pelo Partido Co­munista. Então entendi que estava presenciando a abominação da desolação no Lugar Santo, a respeito da qual Jesus falou.
Sempre tem havido bons e maus pastores e prega­dores. Agora, porém, pela primeira vez na história da Igreja, o Comitê Central de um reconhecido partido ateu, que tem como propósito declarado extirpar a Re­ligião, é quem decide quem é que vai liderar a Igreja. Liderá-la com que propósito? Certamente com o fim de ajudar na extirpação da Religião.
Lenine escreveu: "Toda idéia de religião, toda idéia de Deus, mesmo só o namoro com a idéia de Deus é uma   inexprimível  vileza,   da  mais   perigosa  espécie   e contágio da mais abominável forma. Milhões de peca­dos, ações imundas, atos de violência e contaminação física são muito menos perigosos do que a sutil idéia espiritual de um Deus".
Os Partidos Comunistas de toda a área soviética são leninistas; para estes, religião é pior do que câncer, tuberculose ou sífilis. E eles decidem quem devem ser os líderes religiosos. Com eles, os líderes da Igreja Oficial cooperam, mais ou menos transigindo.
Tenho visto o envenenamento de crianças e jovens com o ateísmo, e as Igrejas Oficiais sem terem a mais leve possibilidade de neutralizá-lo. Em nenhuma Igreja de nossa capital, Bucareste, se pode encontrar uma reunião de mocidade ou Escola Dominical para crianças. Os filhos dos crentes são educados na escola do ódio.
Vendo tudo isso, odiei o Comunismo como não o havia odiado sob suas torturas.
Odiei-o não por causa do que me fizera, mas por causa do mal que faz à Glória de Deus, ao nome de Jesus Cristo e às almas de um bilhão de homens sob seu domínio.
Camponeses vieram de todo o país para ver-me e disseram-me como estava sendo conduzida a coletivização. Agora eram escravos famintos nas fazendas e vinhedos que antes lhes pertenceram. Não tinham pão. Seus filhos não tinham leite nem frutas, quando este país dispõe de riquezas naturais que se igualam às da Canaã antiga.
Irmãos confessaram-me que o regime comunista tinha feito de todos eles ladrões e mentirosos. Por causa da fome tinham de roubar daquilo que fora seu próprio campo, porém que agora pertencia à coletividade. Tinham então de mentir para encobrir seus furtos. Ope­rários falaram-me a respeito do terror nas fábricas e sobre a exploração da mão-de-obra, de um modo como os capitalistas nunca sonharam. Os operários não têm direito de greve.
Intelectuais tinham de ensinar, contra suas con­vicções íntimas, que não há Deus.
Toda a vida e pensamento de um terço do mundo têm sido destruídos ou falsificados.
Mocinhas vieram queixar-se de que tinham sido chamadas à Organização dos Jovens Comunistas e que ali foram censuradas e ameaçadas por terem beijado um rapaz crente; e o nome de outro lhes foi dado, a quem poderiam beijar.
Tudo era profundamente falso e feio. Foi quando encontrei os lutadores da Igreja Subterrânea — meus velhos companheiros, alguns dos quais não haviam sido apanhados e outros que retomaram a luta depois de terem sido libertados da prisão. Convidaram-me a con­tinuar a luta com eles. Assisti a suas reuniões secretas, nas quais cantavam utilizando hinários escritos a mão.
Lembrei-me de Santo Antônio, o Grande. Passou trinta anos no deserto. Tinha abandonado completa­mente o mundo, passando a viver em jejum e oração. Quando, porém, ouviu a respeito da luta travada entre Santo Atanásio e Ario em torno da divindade de Cristo, deixou a vida contemplativa e foi a Alexandria ajudar a verdade a triunfar. Lembrei-me de São Bernardo de Clairvaux. Era também um monge, que vivia no alto das montanhas. Tendo porém ouvido a respeito da insen­satez das Cruzadas, em que cristãos matavam árabes e judeus e irmãos na fé, pertencentes a outra confissão, a fim de conquistarem um túmulo vazio, deixou seu mosteiro e desceu daquelas alturas para pregar contra as Cruzadas.
Resolvi fazer o que todos os cristãos devem fazer: Seguir os exemplos de Cristo, do Apóstolo Paulo, dos grandes santos, renunciar ao pensamento de se afastarem e empenhar-se na luta.
Que luta seria?
Os crentes em prisão sempre têm orado por seus inimigos e lhes têm dado belo testemunho.    O desejo de  nossos  corações  era  que  eles  fossem  salvos  e  nos regozijávamos todas as vezes que isto acontecia.
Eu odiava, porém, o mau sistema comunista e de­sejava fortalecer a Igreja Subterrânea, a ÚNICA FOR­ÇA QUE PODE DESBANCAR ESSA TREMENDA TIRA­NIA, PELO PODER DO EVANGELHO.
Não pensava apenas na Romênia, mas em todo o mundo comunista.
Achei, entretanto, muito desinteresse por estes fatos no Ocidente.
Escritores ao redor do mundo protestaram quando dois escritores comunistas — Siniavski e Daniel — fo­ram sentenciados à prisão por seus próprios camaradas, porém nem mesmo Igrejas protestam quando crentes são encarcerados por causa de sua fé.
Quem se preocupa com o Irmão Kuzyck, sentenciado por cometer o crime de distribuir o "veneno" de publi­cações cristãs, tais como os livros devocionais de Tor-rey e porções bíblicas? Quem sabe a respeito do Irmão Prokofiev, condenado por haver distribuído sermões escritos? Quem sabe a respeito do judeu cristão Grun-vald, condenado por iguais ofensas na Rússia e de quem os comunistas arrebataram para sempre o seu filhinho? Eu sei o que senti quando fui afastado do meu Mihai. Sofro com o Irmão Grunvald, Ivanenko, Graany Shev-chuk, Taisya Tkachenko, Ekaterina Vekasina, Georgi Vekasin e o casal Pilat, na Látvia, e assim por diante, nomes de santos e heróis da fé do Século XX. Inclino-me para beijar suas algemas; como os primeiros cristãos beijaram as dos seus companheiros quando eram con­duzidos para serem lançados às feras bravias.
Alguns líderes da Igreja Ocidental não se importam com eles. Os nomes dos mártires não estão em suas listas de oração. Enquanto estavam sendo condenados e torturados, os líderes batistas russos e ortodoxos da Igreja Oficial, que os haviam denunciado e traído, eram recebidos com muita honra em Nova Delhi, em Genebra e em outras conferências. Assim garantiram a todo o mundo que na Rússia existe ampla liberdade religiosa.
Um líder do Concilio Mundial de Igrejas beijou o bolchevista Arcebispo Nikodim quando este garantiu isso. Então se banquetearam sob o majestoso nome do Concilio, enquanto os santos na prisão comiam repolho com tripas não lavadas, como eu havia comido, em nome de Jesus Cristo.
As coisas não podem permanecer como estão. A Igreja Subterrânea resolveu que eu deixasse o país, se tivesse possibilidade, e informasse aos crentes ociden­tais o que está acontecendo. Decidi denunciar o Co­munismo, embora ame os comunistas. Não acho certo pregar o Evangelho sem denunciar o Comunismo.
Alguns dizem-me: "Pregue somente o Evangelho!" Isto me faz lembrar que a Polícia Secreta comunista também me disse que pregasse a Cristo sem falar no Comunismo. Será que aqueles que são pelo chamado "Evangelho Puro" são inspirados pelo mesmo espírito dos que pertencem à Polícia Secreta Comunista?
Não sei o que seja o chamado "Evangelho Puro". Seria pura a pregação de João Batista? Não somente disse: "Arrependei-vos porque o reino de Deus está perto", como também disse: "Tu, Herodes, és mau". Foi decapitado porque não se restringiu ao ensino abs­trato. Jesus não pregou apenas o "Puro" Sermão da Montanha, porém o que alguns líderes da Igreja atual chamariam de sermão negativo. "Ai de vós escribas e fariseus hipócritas... Raça de víboras!" Foi por cau­sa de tal pregação "impura" que Ele foi crucificado. Os fariseus não se teriam incomodado com o Sermão da Montanha.
O pecado deve ser chamado pelo seu próprio nome. O Comunismo é o pecado mais perigoso do mundo moderno. Todo Evangelho que não o denuncia, não é o puro Evangelho. A Igreja Subterrânea denuncia-o com o risco de sua liberdade e sua vida. Muito menos temos nós de silenciar no Ocidente.
Estou decidido a denunciar o Comunismo não no sentido  em  que  o  fazem  aqueles  que  usualmente  são chamados de "anticomunistas". Hitler era anticomu­nista, não obstante ser um tirano. Odiamos o pecado e amamos ao pecador.




Pesquisa: Pastor Charles Maciel Vieira

TORTURADO POR AMOR A CRISTO - 4ªParte-RICHARD WURMBRAND


Vários crentes me perguntaram como pudemos re­sistir à lavagem cerebral. Há apenas um método de resistência a ela. É a "lavagem do coração" Se o cora­ção estiver purificado pelo amor de Jesus Cristo e se O ama, pode-se resistir a toda e qualquer tortura. Que não faria uma noiva por seu noivo? Que não faria uma mãe por seu filho? Se você ama a Cristo, como Maria O amava, ela que o teve como criança em seus braços; se você, leitor, ama a Jesus, como uma noiva ao seu noivo, pode resistir a tais tormentos.
Deus nos julgará não de acordo com quanto pu­demos suportar, mas de acordo com quanto pudemos amar. Sou testemunha dos crentes em prisões comu­nistas, de que eles puderam amar. Puderam amar a Deus e aos homens.
Os suplícios e brutalidades continuavam sem inter­rupção. Quando eu perdia os sentidos, ou ficava tão entorpecido para dar aos torturadores qualquer espe­rança de confissão, era conduzido à minha cela. Ali era atirado sem nenhuma consideração e quase morto para me reanimar um pouco, a fim de que pudessem voltar a trabalhar em mim. Muitos morreram nesse ponto, mas de alguma maneira minhas forças voltavam. Nos anos seguintes, em várias prisões, quebraram-me quatro vértebras e muitos outros ossos. Golpearam-me em uma dúzia de lugares. Recebi queimaduras no corpo e dezoito ferimentos penetrantes.


Médicos em Oslo, Noruega, vendo tudo isto e as cicatrizes da tuberculose, que também tive, declararam que o fato de estar vivo hoje é um puro milagre. Se­gundo seus livros de Medicina, deveria eu estar morto há anos. Eu próprio reconheço ser um milagre. Deus é um Deus de milagres.
Creio que Deus operou esta maravilha para que muitos pudessem ouvir a minha voz bradar em favor da Igreja Subterrânea de trás da Cortina de Ferro. Permitiu que eu saísse vivo para fazer soar bem alto a mensagem do sofrimento de vocês, fiéis irmãos.
Breve período de liberdade — depois nova prisão
O ano de 1956 chegou. Havia estado na prisão por oito anos e meio. Perdera muito peso, adquirira "horrí­veis'' cicatrizes, fora brutalmente espancado, recebera pontapés, fora ridicularizado, passara fome, fora pres­sionado e interrogado 'ad nauseam", ameaçado e posto de lado. Nada disso havia dado o resultado que meus capturadores desejavam.    E, assim, desencorajados, soltaram-me. Além disso, estavam recebendo protestos por me haverem prendido.
Foi-me permitido voltar à minha posição anterior por apenas uma semana. Preguei dois sermões. Chama­ram-me e disseram-me que não poderia continuar pre­gando, nem participar de nenhuma atividade religiosa. Que havia eu dito? Aconselhei meus paroquianos a ter "paciência, paciência e mais paciência". "Isto significa que você está dizendo a eles que tenham paciência e os americanos virão e os livrarão" — era o que a polícia gritava para mim. Também eu havia dito que "o mundo dá muitas voltas e os tempos mudam". "Você está que­rendo dizer que os comunistas não vão continuar a do­minar! São mentiras contra-revolucionárias!" — ber­ravam eles. Assim foi que chegou ao fim meu minis­tério público.
Provavelmente as autoridades criam que eu esti­vesse com medo de desafiá-las e de voltar ao evangelismo subterrâneo. Nisso é que estavam enganadas. Se­cretamente voltei ao trabalho que fazia antes. Minha família sustentou-me moralmente.
Outra vez testemunhávamos a grupos escondidos, indo e voltando como uma assombração, sob a proteção daqueles em quem se podia confiar. Desta vez eu tinha as cicatrizes em que apoiar minha mensagem a respeito do mal do ponto de vista atpístico e para encorajar al­guma alma hesitante a crer em Deus e a ser valente. Dirigi uma rede secreta de evangelistas, que se em­penhavam na divulgação do Evangelho sob os olhos providencialmente cegos dos comunistas. Afinal, se al­guém pode ser tão cego ao ponto de não ver a mão de Deus a agir, poderá também não ver um evangelista em ação.
Finalmente o interesse incessante da polícia em minhas atividades e em saber por onde eu andava findou. Fui descoberto outra vez e novamente preso. Por alguma razão, desta vez não prenderam minha família, talvez por causa da publicidade feita a meu respeito.   Tivera oito anos e meio de prisão e três anos de liberdade relativa.   Agora ia ser preso por mais cinco anos e meio.
Minha segunda prisão foi, sob muitos aspectos, pior que a primeira. Sabia perfeitamente o que estava para vir. Minha condição física tornou-se péssima quase que imediatamente. Mas continuávamos o trabalho subter­râneo da Igreja Subterrânea nas prisões subterrâneas comunistas.
Fizemos um acordo — Nós pregávamos eles nos batiam!
Proibiram-me terminantemente de pregar a outros prisioneiros. Ficou entendido que quem fosse apanhado pregando, receberia uma tremenda surra. Vários de nós resolvemos pagar o preço do privilégio de pregar; por­tanto, aceitamos as condições deles. Era um acordo: nós pregávamos e eles nos batiam. Éramos felizes pre­gando. Estavam felizes em nos espancar. Por conse­guinte, todos estavam felizes.
A cena que vou descrever repetiu-se mais vezes de quantas me é possível lembrar: um irmão estava pre­gando a outros presos quando os guardas repentinamente entraram, surpreendendo-o na metade de uma frase. Arrastaram-no pelo corredor até a "sala de surras". Depois do que parecia uma surra que não acabava mais, traziam-no de volta e o jogavam — moído e sangrento — no chão do cárcere. Vagarosamente se reanimava. Doloridamente ajeitava a roupa e dizia: "Agora, irmãos, em que ponto estava quando fui interrompido?" E continuava a sua mensagem do Evangelho.
Já presenciei coisas belas assim!
Algumas vezes os pregadores eram leigos. Homens simples, inspirados pelo Espírito Santo, muitas vezes pregavam maravilhosamente. Punham todo o seu cora­ção no que diziam, pois, pregar sob tais circunstâncias de castigo não era coisa fácil. Os guardas vinham, le­vavam o pregador e o esbordoavam até quase morrer.
Na prisão de Gherla, um crente de nome Grecu foi sentenciado a apanhar até morrer. Nisso tiveram de gastar algumas semanas. Ia sendo espancado vagaro­samente. Uma vez na sola dos pés com um cassetete de borracha e deixado para um lado. Depois de alguns mi­nutos, outro golpe, alguns minutos mais, ainda outro. Levou pancada nos testículos. Veio o médico aplicar-lhe uma injeção. Recuperou os sentidos e lhe deram boa ali­mentação para recobrar as forças e então foi espan­cado outra vez até morrer sob essa pancadaria vagarosa e repetida. Um dos que presidiu a esse suplício cha­mava-se Reck, membro do Comitê Central do Partido Comunista.
Em dado momento esse Reck disse uma frase que os comunistas costumavam dizer aos crentes: "Sabe, eu sou Deus. Tenho poder de vida e morte sobre você. O que está no céu não pode resolver conservá-lo com vida. Tudo depende de mim. Se eu quiser você viverá se não quiser você morrerá. Eu sou Deus!" Dessa forma zombavam dos cristãos.
O irmão Grecu, nessa horrível situação, respondeu a Reck de um modo mui interessante, e que ouvi poste­riormente do próprio algoz: "Não sabes quão profun­das palavras disseste. És realmente Deus. Cada lagarta é na realidade uma borboleta, se desenvolver devi­damente. Não foste criado para ser torturador, para matar. Foste criado para te tomares um ser à seme­lhança de Deus. Jesus disse aos judeus dos Seus dias: 'Sois deuses'. A vida de Deus Pai está no teu coração. Muitos que foram como tu és, muitos perseguidores, como o apóstolo Paulo, descobriram em dado momento que é vergonhoso para o homem cometer tais atrocida­des, quando podem fazer coisas muito melhores. E tornaram-se participantes da natureza divina. Crê-me, Sr. Reck, sua verdadeira missão é ser deus, semelhante a Deus, e não um torturador".
Naquele momento Reck não prestou muita atenção às palavras de sua vitima, como Saulo de Tarso não ligou importância às belas palavras do testemunho de Estevão ao ser morto em sua presença.    Mas aquelas palavras trabalharam em seu coração.    Posteriormente entendeu ser realmente aquela a sua vocação.
Grande lição aprendemos com as surras, torturas e outros maus tratos dos comunistas: que o espírito é se­nhor, dominador do corpo. Muitas vezes, quando ator­mentados, sentíamos os tormentos, mas nos pareciam algo distantes e afastados do espírito que estava embe­vecido na Glória de Cristo e com Sua presença em nós.
Quando nos era dada uma fatia de pão por sema­na e uma sopa nojenta por dia, resolvemos que até em tais circunstâncias daríamos fielmente o "dízimo". Cada décima semana tomávamos a fatia de pão e a dávamos a um irmão mais fraco, como nosso "dízimo" ao Senhor.
Um crente fora sentenciado à morte. Antes de ser executado foi-lhe permitido ver a esposa. Suas últimas palavras a ela foram: "Deves saber que morrerei aman­do aqueles que me matam. Não sabem o que fazem e meu último pedido a você é que os ame também. Não tenha ódio no coração por matarem seu amado. Nós nos •encontraremos nos céus". Estas palavras impressiona­ram o oficial da Polícia Secreta que estava presente à conversa entre os dois, o qual me contou a história na prisão, onde havia sido colocado por se haver tornado crente.
Na prisão de Tírgu-Ocna havia um jovem prisio­neiro por nome Matchevici. Havia sido posto na prisão com a idade de dezoito anos. Por causa das torturas estava muito doente, tuberculoso. A família de alguma maneira o descobriu e lhe enviou um pacote com 100 tubos de Streptomicina, que poderiam restaurar-lhe a saúde. O oficial político da prisão chamou-o e mostrou-lhe o pacote, dizendo: "Aqui está o medicamento que pode salvá-lo. Mas não lhe é permitido receber pacotes de seus familiares. Pessoalmente eu gostaria de aju­dá-lo. Você é jovem. Não gostaria de vê-lo morrer na prisão. Ajude-me a poder prestar-lhe assistência. Dê-me informações de seus companheiros de prisão e isto me justificará ante meus superiores por lhe haver entregue o pacote".    Matchevici respondeu prontamente:     "Não desejo permanecer vivo e me envergonhar de olhar-me num espelho, porque verei o rosto de um traidor. Não posso aceitar tal condição. Prefiro morrer". O ofi­cial da Polícia Secreta balançou a cabeça e disse: "Con­gratulo-me com você. Não esperava outra resposta sua. Gostaria, porém de lhe fazer outra proposta. Alguns dos presos tornaram-se nossos informantes. Afirmam ser comunistas e estão denunciando você. Fazem um jogo duplo. Não temos confiança neles. Gostaríamos de saber até que ponto são sinceros. São seus traidores. Estão-lhe fazendo muito mal aos nos informarem de suas pa­lavras e ações. Entendo que você não queira trair seus amigos. Então dê-nos informações destes que se opõem a você, de maneira que possa salvar a sua vida!" Mat-chevici respondeu tão prontamente quanto da primeira vez: "Sou discípulo de Cristo. Ele nos ensinou que de­vemos amar até aos nossos inimigos. Estes que nos traem fazem-nos muito mal, porém não posso retribuir mal por mal. Não posso dar informação nem mesmo contra estes. Tenho piedade deles, oro por eles e não desejo ter qualquer ligação com os comunistas". Matchevicl voltou da entrevista com o oficial político e morreu na mesma cela em que eu estava. Vi-o morrendo — a louvar a Deus. O amor venceu até a sede natural pela vida!
Se uma pessoa muito pobre ama realmente a mú­sica, dá seu último centavo para ouvir um concerto. Depois vai ficar sem nada, mas não se sentirá frustrada. Ouviu músicas belíssimas.
Não me sinto frustrado por haver perdido tantos anos na prisão. Vi coisas belíssimas. Eu mesmo já estive preso no meio de pessoas fracas e sem Importância, porém tive por outro lado o privilégio de estar na mesma cela com grandes santos, heróis da fé, que se iguala­vam aos cristãos do primeiro século. Alegremente mar­chavam para morrer por Cristo. A beleza espiritual de tais santos e heróis da fé jamais será possível descrever.
As coisas que relato aqui não são excepcionais. O sobrenatural tornou-se natural para os crentes da Igreja Subterrânea.
A Igreja Subterrânea é a Igreja que voltou ao pri­meiro amor.
Antes de entrar na prisão eu amava muito a Cristo. Agora, depois de ter visto a "noiva do Senhor" — seu Corpo espiritual — no cárcere, quero afirmar que amo a Igreja Subterrânea tanto quanto amo ao próprio Cristo. Vi a beleza dela e seu espírito de sacrifício.

O que aconteceu à minha esposa e ao meu filho

Fui levado para longe de minha esposa. Não sabia o que lhe havia acontecido. Depois vim a saber que também havia sido aprisionada. As mulheres crentes sofrem muito mais que os homens, na prisão. As moças são violentadas pelos guardas brutais. A blasfêmia e as obscenidades são horrveis. As mulheres eram obriga­das a trabalho forçado em um canal que tinha de ser construído, e tinham de executar a mesma tarefa que os homens. Removiam terra no inverno. Prostitutas eram colocadas como supervisoras e rivalizavam com os guar­das nas torturas aos fiéis. Minha esposa teve que comer grama feito gado para poder sobreviver. Ratos e cobras eram comidos pelos prisioneiros famintos nesse canal para não morrerem de fome. Uma das diversões dos guardas aos domingos era empurrar mulheres para dentro do Danúbio e depois pescá-las, para se rirem e ridicularizá-las quando viam seus corpos molhados e jogá-las de volta ao rio para serem pescadas outra vez. Minha esposa foi atirada ao Danúbio dessa maneira.
Meu filho fora deixado em liberdade para vagar pelas ruas, quando a mãe e eu estávamos presos. Mihai tinha sido desde criança muito religioso e muito interessado em assuntos relacionados com a fé. Depois, com a idade de 9 anos, quando eu e a mãe fomos arrebatados dele, passou por uma crise em sua fé cristã. Havia-se tornado ríspido e duvidava de toda a sua religião. Tinha com essa tenra idade problemas que as crianças em geral não têm.    Precisava pensar em ganhar o pão de cada dia.
Era crime ajudar as famílias dos mártires cristãos. Duas senhoras que ajudaram meu filho foram presas e apanharam tanto que até o presente estão aleijadas, depois de 15 anos. Uma senhora, que arriscou a vida e levou-o para sua casa, foi condenada a oito anos de prisão por esse crime de ter ajudado a família de um preso. Todos os seus dentes lhe foram quebrados a pon­tapés. Seus ossos fraturados. Nunca mais poderá tra­balhar.  Ela também ficará aleijada para o resto da vida.
"Mihai, creia em Jesus!"
Com a idade de 11 anos, Mihai começou a ganhar sua manutenção, trabalhando habitualmente. Os sofri­mentos abalaram sua fé. Mas depois de dois anos de encarceramento de minha esposa, foi-lhe permitido visitá-la. Dirigiu-se à prisão comunista e viu sua mãe por trás das grades de ferro. Estava suja, magra, com as mãos calejadas, vestindo esfarrapado uniforme de prisão. Mal a reconheceu. As primeiras palavras dela foram: "Mihai, creia em Jesus!" Os guardas, com fúria selva­gem, tiraram-na da presença de Mihai e a levaram. O menino chorou ao ver sua mãe ser arrastada. Esse minuto foi o momento de sua conversão. Ele sabia que se Cristo pode ser amado sob tais circunstâncias, é real­mente o verdadeiro Salvador. Posteriormente afirmou: "Se o Cristianismo não tivesse outro qualquer argu­mento em seu favor, além do fato de minha mãe crer nele, este mesmo fato seria para mim suficiente". Aquele foi o dia em que aceitou a Cristo completamente.
Na escola, Mihai tinha uma batalha contínua pela sua existência. Fora bom aluno e como recompensa recebera uma gravata vermelha — sinal de membro dos Jovens Pioneiros Comunistas. Meu filho disse: "Jamais usarei a gravata daqueles que aprisionaram meu pai e minha mãe". Foi expulso da escola por isto. Depois de perder um ano, entrou na escola outra vez, escondendo o fato de ser filho de um preso cristão.
Posteriormente teve de escrever uma tese contra a Bíblia.   E escreveu: "Os argumentos contra a Bíblia são fracos e as citações contra ela são inverídicas. Certa­mente o professor jamais leu a Bíblia. A Bíblia está em harmonia com a ciência". Outra vez foi expulso. Agora teve de perder dois anos escolares.


Por fim permitiram-lhe entrar no Seminário. Aí lhe era ensinada "Teologia Marxista". Tudo era expli­cado de acordo com os padrões de Karl Marx. Mihai protestou publicamente em classe. Outros estudantes fizeram o mesmo. O resultado foi ser expulso e não pôde terminar seu treinamento teológico.
Certa vez na escola, quando o professor proferia uma conferência ateística, meu filho levantou-se e o contra­disse, afirmando que sobre ele pesava grande responsa­bilidade ao levar tantos jovens pelo caminho errado. Toda a classe ficou ao seu lado. Foi necessário que um tivesse a coragem de se levantar primeiro. Então todos ficaram de seu lado. Para obter a sua educação, cons­tantemente encobria o fato de ser filho de Wurmbrand, o prisioneiro cristão. Todavia com freqüência era des­coberto, repetindo-se a cena costumeira de ser chamado ao gabinete do diretor para ser expulso.
Mihai também passou muita fome. As famílias de cristãos encarcerados nos países comunistas quase sem­pre chegam perto de morrer de fome. Ê grande crime ajudá-las.
Contarei apenas um caso de sofrimento, de uma família que conheço pessoalmente. Um irmão fora preso por seu trabalho na Igreja Subterrânea. Deixara a esposa com seis filhos. As filhas mais velhas, de 17 e 19 anos, não podiam arranjar emprego. O único que prove trabalho num país comunista é o Estado, e não o dá a filhos dos crentes "criminosos". Por favor, os leitores não julguem esta história à luz de padrões mo­rais. Apenas recebam os fatos. As duas filhas do mártir cristão — também crentes — tornaram-se prostitutas para poder sustentar seus irmãos mais novos e a mãe doente. O irmão mais novo, de 14 anos, enlouqueceu quando viu o que estava acontecendo e teve de ser man­dado a um asilo.  Quando, depois de anos, o pai retornou, sua única oração era: "Deus, leva-me de volta à prisão. Não poderei suportar ver isto". Sua oração foi respon­dida e está agora na prisão, pelo crime de haver teste­munhado de Cristo às crianças. Suas filhas não são mais prostitutas. Receberam um trabalho da Polícia Secreta. Tornaram-se informantes. Como filhas de um mártir cristão, são recebidas com honra em todas as casas. Escutam e então relatam tudo quanto ouvem à Polícia Secreta.
O leitor não deve apenas dizer que é uma história fria e imoral. Certamente que é, mas pergunte a si mesmo se não é também seu, o pecado de tais tragédias ocorrerem — essas famílias cristãs serem deixadas aban­donadas, sem a sua ajuda, que é livre.


CAPÍTULO III

Passei um total de catorze anos na prisão. Durante todo este tempo não vi a Bíblia ou qualquer outro livro evangélico. Cheguei ao ponto de esquecer-me de escre­ver, e por causa de grande fome, entorpecentes que me aplicavam e torturas, esqueci-me também das Escrituras. Mas no dia em que havia completado catorze anos de encarceramento, lembrei-me do versículo: "Jacó trabalhou por Raquel catorze anos e isto lhe pareceu pouco tempo porque ele a amava.”.
Pouco depois, eu era posto em liberdade, em conse­qüência de uma anistia geral em todo o país, em grande parte por influência da opinião pública norte-americana.
Outra vez encontrei-me com minha esposa, que me havia esperado fielmente durante esses catorze anos.
Começamos uma vida nova, em extrema pobreza, porque se alguém é preso tudo que possui é confiscado.
Os padres ortodoxos e os pastores que foram liber­tados podiam ficar com pequenas igrejas. Foi-me en­tregue uma na cidade de Orsova. O Departamento de Cultos do Regime Comunista advertiu-me que a minha Congregação era composta de trinta e cinco membros e que esse número nunca poderia chegar a trinta e seis. Também me foi dito que teria de ser agente do Depar­tamento e relatar à Polícia Secreta a respeito de todos os membros e manter todos os jovens fora da Igreja. Este é o meio pelo quais as Igrejas são usadas como "instrumento" de controle dos comunistas.
Sabia que, se começasse a pregar, muitos haveriam de vir ouvir, portanto nunca tentei principiar meu tra­balho na Igreja Oficial. Trabalhei outra vez na Igreja Subterrânea, partilhando de todos os perigos e glórias desse trabalho.
Durante os anos que passei na prisão Deus operou maravilhas.  A Igreja Subterrânea não estava mais abandonada e esquecida.    Crentes americanos e outros ha­viam começado a nos ajudar e a orar por nós.
Uma tarde quando descansava um pouco em casa de um amigo crente em uma cidade provinciana, este me acordou e disse: "Chegaram alguns irmãos de longe". No Ocidente havia crentes que não nos haviam esque­cido ou abandonado.
Alguns crentes (não Incluindo pastores ou líderes) haviam organizado um serviço Secreto de ajuda às fa­mílias dos mártires cristãos, como também de contra­bando de literatura evangélica e de socorro.
Na outra sala encontrei seis irmãos que haviam vindo para fazer este trabalho. Falaram muito comigo. Depois de multo tempo disseram que tinham ouvido que naquele endereço havia um homem que passara catorze anos na prisão, ao qual gostariam de conhecer. Então lhes disse que eu era o homem a quem procuravam. Disse­ram: "Esperávamos ver uma pessoa melancólica. Você não pode ser a pessoa que buscamos porque é cheio de alegria". Assegurei-lhes ser o homem a quem busca­vam e disse-lhes que a alegria que viam em mim era por saber que haviam vindo e que não estávamos mais esquecidos. Uma ajuda certa e contínua começou a vir para a Igreja Subterrânea. Por canais secretos conse­guimos muitas Bíblias e literatura evangélica em geral, como também ajuda material para as famílias dos már­tires cristãos. Agora com a ajuda destes, nós, da Igreja Subterrânea, podíamos fazer um trabalho bem melhor.
Não era apenas o fato de nos trazerem a Palavra de Deus, mas também o de sabermos que éramos amados. Eles nos trouxeram uma palavra de conforto.
Durante os anos de lavagem cerebral ouvíamos com muita freqüência: "Ninguém mais os ama, ninguém mais os ama, ninguém mais os ama". Agora víamos crentes, tanto americanos como ingleses que arriscavam a vida para mostrar que nos amavam. Aceitando nossos conselhos, desenvolveram técnicas do Serviço Secreto. Penetravam em casas já cercadas pela Polícia “Secreta” A Polícia não sabia que haviam entrado.
O valor dessas Bíblias contrabandeadas por tais homens jamais pode ser entendido por pessoas livres, americanos ou ingleses, que "nadam" em Bíblias!
Minha família e eu não teríamos sobrevivido não fora a ajuda recebida dos crentes que oravam por nós. O mesmo acontece com muitos pastores ou famílias de mártires da Igreja Subterrânea nos países comunistas. Posso dar testemunho de minha própria experiência a respeito da ajuda material e, mais ainda, da ajuda mo­ral que nos foi dada pela Missão Cristã Européia da In­glaterra. Para nós, seus homens foram como que anjos enviados por Deus!
Por causa do desenvolvimento do trabalho da Igreja Subterrânea, estive mais uma vez na iminência de ser preso. Então, desta vez duas organizações — A Missão Norueguesa para os Judeus e a Aliança Cristã Hebraica — pagaram um resgate de 2.500 libras por minha pessoa. Podia agora deixar a Romênia.

Por que deixei a Romênia Comunista

Não a teria deixado — apesar dos perigos — se os líderes da Igreja Subterrânea não me tivessem cons­trangido a usar esta oportunidade de deixar o país, para ser a "voz" da Igreja Subterrânea para o mundo livre. Eles desejavam que eu falasse em seu nome, a vocês, do mundo ocidental a respeito de seus sofrimen­tos e necessidades. Vim para o Ocidente; meu coração, porém, ficou com eles. Se não entendesse que havia grande necessidade de vocês ouvirem a respeito dos so­frimentos e do trabalho corajoso da Igreja Secreta, jamais teria deixado a Romênia. Esta é, portanto, a mi­nha missão.
Antes de deixar meu país fui chamado duas vezes ã Policia Secreta. Disseram-me que haviam recebido o dinheiro do meu resgate. (A Romênia vende seus ci­dadãos a dinheiro, por causa da difícil crise financeira trazida para o nosso país pelo Comunismo).   Disseram-me: "Vá para o Ocidente e pregue Cristo tanto quanto queira, mas não nos moleste. Não diga nada contra nós. Aqui está o nosso plano a seu respeito, se contar o que lhe aconteceu durante estes anos: Em primeiro lugar, por apenas 500 libras podemos contratar Um 'gangster' para liquidá-lo, ou poderemos raptá-lo". (Estive na mesma cela com um bispo ortodoxo, Vasile Leul, que fora raptado na Áustria e trazido para a Romênia. To­das as suas unhas lhe haviam sido arrancadas. Estive também com outros raptados em Berlim. Recentemen­te romenos foram raptados em Paris e na Itália). Dis­seram-me mais: "Podemos também destruí-lo moral­mente, espalhando uma estória sua com uma jovem, roubo ou algum outro pecado de sua juventude. Os ocidentais — especialmente os americanos — deixam-se enganar facilmente".
Depois de me haverem ameaçado, permitiram-me vir para o Ocidente. Têm muita confiança no processo da lavagem cerebral pelo qual passei. No Ocidente exis­tem muitos que, como eu, passaram por lavagem cere­bral, os quais foram reduzidos ao silencio. Alguns deles até mesmo louvam o Comunismo depois das torturas por que passaram. Os comunistas estavam bem seguros de que eu também guardaria silencio.
Assim, em dezembro de 1965, eu e minha família deixamos a Romênia.
Meu último ato, antes de partir, foi visitar o túmulo do coronel que me mandou prender e decretou os meus anos de prisão. Coloquei uma flor sobre o seu túmulo. Fazendo isso, dediquei-me a trazer as alegrias de Cristo, que tenho, para os comunistas, que são tão vazios espi­ritualmente.
Odeio o sistema comunista, mas amo os seus homens. Odeio o pecado, mas amo o pecador. Amo os comunis­tas de todo o meu coração. Eles podem matar os crentes, mas o amor que estes têm por aqueles que os matam, esse amor eles não destroem. Não tenho o menor rancor aos comunistas, nem mesmo aos meus torturadores.



CAPITULO IV
Os judeus têm uma lenda interessante. Quando seus antepassados foram salvos do Egito e os egípcios se afo­garam no Mar Vermelho, os anjos, juntamente com eles, cantaram louvores. E Deus disse aos anjos: "Os judeus podem alegrar-se por serem homens e alegram-se por estar livres. Mas de vocês espero mais compreensão. Não sãos os egípcios também minhas criaturas? Não os amo também Eu? Como então vocês se negam a sentir como Eu o trágico destino deles?”.
"E estando Josué ao pé de Jerico, levantou os olhos e olhou; e eis que se pôs em pé diante dele um homem que tinha na mão uma espada desembainhada. Chegou-se Josué a ele e lhe disse: “És tu os nossos, ou dos nossos adversários”?”.
Se aquele que foi encontrado por Josué fosse ape­nas homem só poderia ter dito "sou por ti", ou "sou por teus inimigos", ou talvez "sou neutro". São estas as únicas respostas que uma criatura humana pode dar a tal pergunta. Entretanto o Ser com o qual Josué se encontrou era de outra esfera e, por isso, quando inda­gado se era pró ou contra Israel, respondeu: "Não". Que significava esse "Não"?
Ele proveio de outra esfera onde os seres não são pró nem contra, mas onde cada um e tudo é bem en­tendido, visto com piedade, compaixão e fervente amor.
Existe um nível humano. Nesse nível, *o Comunismo deve ser combatido de modo total. Nesse nível temos de lutar também contra os comunistas, em vista de patro­cinarem esse sistema seu, cruel e selvagem.
Os crentes, porém, são mais do que meros homens; são filhos de Deus, participantes da Natureza Divina.
Por conseguinte, as torturas sofridas nas prisões comunistas não me fizeram odiar os comunistas. Eles também são criaturas de Deus.   Como poderia odiá-los?
Também não posso ser amigo deles. Amizade significa duas almas interligadas. Eu não tenho minha alma in­terligada com a dos comunistas. Eles detestam a idéia de Deus.   Eu amo a Deus.
Se me fosse perguntado: "Você é pró ou contra os comunistas?" Minha resposta seria complexa. O Comu­nismo é o maior perigo para a humanidade. Sou dia­metralmente oposto a ele e desejo combatê-lo até vê-lo derrotado. Mas, no espírito, estou nos lugares celestiais com Cristo. Estou sentado na esfera do "Não", na qual, apesar de todos os crimes dos comunistas, estes são entendidos e amados; esfera na qual há seres angelicais tentando ajudar todos a atingir o alvo da vida huma­na, que é imitar Cristo. Portanto, meu objetivo é es­palhar o Evangelho entre os comunistas, dando-lhes as boas novas de Vida Eterna.
Cristo, que é meu Senhor, ama os comunistas. Ele próprio já afirmou que ama a todos os homens e que preferiria deixar noventa e nove ovelhas justas a permi­tir que uma única extraviada continuasse perdida. Seus Apóstolos e todos os grandes mestres do Cristianismo nos ensinam este amor universal em Seu nome. São Macário disse: "Se um homem ama a todos os demais com ardor, mas refere apenas um a quem não pode amar tal homem não é mais um cristão, porque seu amor não é universal". Santo Agostinho ensina: "Se toda a hu­manidade fora perfeita, mas apenas um homem fora pecador, Cristo teria vindo sofrer na cruz por esse ho­mem, porquanto Ele ama cada pessoa individualmente". Os ensinamentos cristãos são claros. Os comunistas são homens, e Cristo os ama. Da mesma maneira agem todos quantos têm a mente de Cristo. Amamos ao pecador, apesar de odiarmos o pecado.
Sabemos do amor de Cristo para com os comunis­tas por intermédio do nosso amor para com eles.
Já vi nas prisões comunistas crentes com 25 quilos de correntes presas aos seus pés, flagelados com ferro em brasa, na garganta dos quais, várias colheres de sal eram colocadas, sendo deixados depois sem água, com fome, recebendo chicotadas, tiritantes, a orar com fer­vor pelos comunistas. Era isto humanamente inexplicá­vel, senão que o amor de Cristo fora derramado naqueles corações.
Depois de algum tempo, os comunistas que nos ha­viam torturado eram presos por sua vez. Sob o Comu­nismo, comunistas e até seus líderes são metidos na ca­deia, quase que tão freqüentemente quanto seus adver­sários. Era agora a vez de os torturadores estarem na mesma cela dos torturados. E enquanto os reclusos não crentes mostravam ódio aos seus ex-torturadores e os maldiziam, os presos crentes tomavam a si a defesa deles, apesar de se arriscarem a ser espancados e acusa­dos de cumplicidade com eles. Já presenciei crentes dando sua última fatia de pão (tínhamos na ocasião uma por semana) e o medicamento que poderia salvar suas vidas, a um torturador comunista doente, que era agora um companheiro de cela!
As últimas palavras de Iuliu Maniu, ex-Primeiro Mi­nistro da Romênia, crente e que morreu na prisão, fo­ram: "Se os comunistas forem dominados em nosso país, a missão mais sagrada de cada crente será ir às ruas, arriscando sua própria vida, para defender os co­munistas da fúria daqueles que com razão os buscam por haverem sido tiranizados por eles".
Nos primeiros dias após minha conversão, sentia que viver não me era mais possível. Andando pelas ruas o coração se me confrangia, diante de cada homem ou mulher por quem passasse. Era-me como se um punhal ferisse meu coração, tão pungente para mim era a dúvida, se ele ou ela havia ou não sido salvo. Se um membro da Igreja pecava, eu passava horas a chorar. O desejo de que todas as almas se salvassem estava de contínuo em meu coração, e ainda hoje os comunistas não estão excluídos dele.
Em prisão solitária não podíamos orar como antes. Ficávamos inconcebivelmente famintos. Éramos narco-tizados até nos tornarmos como idiotas.    Éramos tão fracos como esqueletos. A oração do Pai Nosso era muito longa para que a pudéssemos recitar. Não podíamos nos concentrar o tempo bastante para isso. Minha única oração, que repetia sempre, era:     "Jesus, eu te amo!”.
Um dia glorioso, então, recebi a resposta de Jesus: "Tu me amas? Agora te mostrarei como Eu te amo". Imediatamente senti um calor no coração, como de raios solares. Os discípulos a caminho de Emaús disseram que seus corações ardiam enquanto Jesus lhes falava. O mesmo me aconteceu. Conheci o amor dAquele que Se deu na cruz por todos nós. Tal amor não pode excluir os comunistas, entretanto agrava mais os pecados deles.




Pesquisa: Pastor Charles Maciel Vieira