quarta-feira, 18 de maio de 2011

PSICOLOGIA PASTORAL - 1ºPARTE-Prof. Pr. VICENTE LEITE - IBETEL



Introdução à Psicologia

1.1         O Que é Psicologia

  As antigas especulações sobre a alma e a capacidade intelectual do homem foram complementadas desde o século XIX por uma nova ciência, a psicologia, que estabeleceu métodos e princípios teóricos aplicáveis ao estudo e de grande utilidade no estudo e tratamento de diversos aspectos da vida e da sociedade humana.

  Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento.
  Entende-se por comportamento uma estrutura vivencial interna que se manifesta na conduta. O termo psicologia origina-se da junção de duas palavras gregas: psiché, "alma", e lógos, "tratado", "ciência".

  A teoria psicológica tem caráter interdisciplinar por sua íntima conexão com as ciências biológicas e sociais e por recorrer, cada vez mais, a metodologias estatísticas, matemáticas e informáticas. Não existe, contudo, uma só teoria psicológica, mas sim uma multiplicidade de enfoques, correntes, escolas, paradigmas e metodologias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas divergências
entre si.

  Nos últimos anos tem-se intensificado a interação da psicologia com outras ciências, sobretudo com a biologia, a lingüística, a informática e a neurologia. Com isso, surgiram campos de aplicação interdisciplinares, como a psicobiologia, a psicofarmacologia, a inteligência artificial e psiconeurolingüística

1.2 História da Psicologia

  Períodos da história da psicologia. Há formas mais simples e outras mais elaboradas de se distinguirem as fases na história da psicologia.
  Uma forma simples consistiria em considerar dois grandes períodos: o
filosófico-especulativo e o científico. O primeiro tem raízes no pensamento grego e se estende até o final do século XIX ou princípio do XX, conforme o critério escolhido para delimitação do começo da psicologia científica.

  Como marco inicial do período científico poder-se-ia fixar um dentre dois momentos: a consagração do método experimental como procedimento possível e adequado à problemática psicológica – caso em que Wilhelm Wundt seria seu iniciador --, ou o uso sistemático do conceito de comportamento como objeto da pesquisa -- e, nesse caso, estaria em evidência John B. Watson.

  Os filósofos antigos, gregos e medievais procuravam, antes de tudo, dar resposta aos problemas fundamentais acerca da natureza da alma, sua relação com o corpo, seu destino depois da morte, a origem das idéias etc. Somente com o advento do espírito científico e, principalmente, com a constatação de que há possibilidade de
encontrar fórmulas suficientemente precisas entre variação do estímulo físico, mudança fisiológica e reação psíquica, é que começou o trabalho pioneiro de Gustav Fechner, Hermann Helmholtz e Wilhelm Wundt: a psicofísica e a psicofisiologia.
  Para Wundt, o objeto da psicologia era a consciência; entendia a ciência como estudo da estrutura ou das funções detectáveis na experiência interior, nos processos psíquicos de sensação, percepção, memória e sentimentos. A essa concepção da psicologia opuseram-se psicólogos científicos posteriores, em particular os behavioristas, para os quais só pode haver ciência a partir do que é externamente observável (no caso, o comportamento).

1.3 Principais Escolas de Psicologia

  Uma das maneiras de classificar as especialidades em que se dividiu a
psicologia é segundo os conteúdos examinados por cada área. Assim, as principais disciplinas psicológicas seriam a psicologia da sensação, da percepção, da inteligência, da aprendizagem, da motivação, da emoção, da vontade e da personalidade. Outra divisão possível se faz segundo o critério de examinar esses mesmos conteúdos quanto a sua relação com o funcionamento do organismo (psicologia fisiológica); ou quanto a sua manifestação no decorrer da evolução (psicologia do desenvolvimento); ou quanto à comparação desses processos nos
diversos graus de evolução animal pode esclarecer o comportamento humano (psicologia comparada); ou, ainda, quanto ao condicionamento que esses processos impõem à vida social do homem, ao mesmo tempo que as diversas formas da convivência social influem na manifestação concreta dos mesmos (psicologia
social).

  Os pioneiros da psicologia científica, Wundt, William James e Edward B. Titchener, se incluem na escola estruturalista, para a qual o importante é determinar os dados imediatos da consciência: as características principais e específicas dos processos de consciência e seus elementos fundamentais.

  A corrente funcionalista, à qual pertenciam os americanos John Dewey, Robert S. Woodworth, Harvey A. Carr e James R. Angell, privilegia o estudo das funções mentais, em detrimento de sua morfologia e estrutura. Em vez de investigar somente "o que é", o psicólogo estudará "para que serve" e "como se efetua" o processo
psíquico.

  Na década de 1910, John B. Watson lançou a corrente behaviorista.
  Criticava tanto o funcionalismo quanto o estruturalismo, que ele julgava serem demasiado subjetivos e imprecisos e propôs o estudo exclusivo do comportamento (em inglês behavior), ou seja, daquilo que é observável na conduta do homem.   Segundo ele, seria cientificamente observável a ação de um estímulo sobre o organismo e a reação deste em face do estímulo. A relação entre estímulo e reação teria seu protótipo nos reflexos incondicionado e condicionado.

  Tanto o estruturalismo quanto o behaviorismo clássico procuravam reduzir o estudo da psicologia ao estudo dos elementos do comportamento. Contra essa dissecação da vida psíquica insurgiu-se a corrente fundada por Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, chamada psicologia da forma ou Gestaltpsychologie. Partindo da
investigação das percepções, os gestaltistas formularam o princípio segundo o qual o conjunto dos fenômenos psíquicos apresenta características que não podem ser inferidas das partes isoladamente.

  Muitos psicólogos europeus – como Max Scheler, Frederick J. Buytendijk e Maurice Merleau-Ponty – seguem a corrente fenomenológica, cujos caminhos foram explorados por Franz Brentano e Edmund Husserl já no século XIX. A fenomenologia em psicologia consiste em captar a vivência do outro diretamente no comportamento
onde está incluída a significação do ato. Portanto, os psicólogos devem analisar tal comportamento sem procurar "atrás" dele o fenômeno psíquico, mas tentando descobri-lo no próprio fenômeno, pois o mundo fenomenal pode ser analisado diretamente, por ser um dado tão imediato quanto o "eu".


1.4 Métodos e Técnicas

  Os métodos científicos da psicologia podem ser divididos em três grupos: experimentais, diferenciais e clínicos. Os métodos experimentais, oriundos das ciências físicas, têm por princípio a variação de um fator, o fator causal também chamado variável independente, mantendo constantes todas as outras fontes de
influência. Observar-se-ão, assim, as modificações produzidas na variável dependente. A tarefa fundamental do psicólogo será, de um lado, encontrar medidas precisas quanto às variações das variáveis independente e dependente, e, de outro lado, controlar todas as outras variáveis para que seu efeito possa ser considerado como constante.

  Em certos casos, como no estudo do desenvolvimento dos fatores da inteligência, da personalidade etc., o psicólogo não pode variar diretamente o fator que deseja estudar. Recorre então ao método diferencial. As diferenças individuais constituirão a variável propriamente dita; as outras condições, e mesmo as provas às quais os indivíduos serão submetidos, ficam constantes.

  Enquanto os dois métodos citados permitem estabelecer leis gerais, o método clínico se propõe compreender o indivíduo em sua situação particular ou pretende aplicar as diversas leis gerais a casos individuais. Seu uso é indispensável no diagnóstico da personalidade. Para o conhecimento preciso de determinados fenômenos psicológicos, muitas vezes os três métodos devem ser empregados conjuntamente.

1.5 Conceito de Psicologia Pastoral
  A psicologia pastoral, na sua essência e na sua tarefa, é ciência auxiliar da teologia pastoral e, como esta serve diretamente à assistência espiritual e prática. A psicologia pastoral pode definir-se, noutras palavras, como ciência psicológica enquanto oferece os conhecimentos psicológicos necessários a assistência espiritual.
  Como a assistência espiritual tem por objeto a alma humana, o pastor de almas agirá com tanto mais sucesso, quanto mais conhecer a alma. O pastor e o educador que não se identificarem, com a alma nas suas peculiaridades e condições e não as compreenderem, saberão bem pouco de suas profundas misérias e necessidades, para poder remediá-las; de seus defeitos e obstáculos; de suas tendências e prerrogativas, para poder realizá-las. Faz lembrar o semeador que lança a semente preciosa ao vento. “Não tem sido esta, às vezes, nossa atitude? Fé límpida e a melhor das vontades por parte do pastor, trabalho ininterrupto, dia e noite, todavia sem fruto! Falta de clarividência e de tato pedagógico, de compreensão das almas e dos tempos.

  ‘Vós, teólogos, não nos compreendeis’ era muitas vezes a sentença conclusiva de quem precisava de nós e de quem nós precisamos” (L. Bopp).
  Olhando desse ponto de vista, devemos admirar como a ciência da alma humana, do caráter, do temperamento, das peculiaridades da vida psíquica segundo a idade, o sexo e as condições de vida tenha parte tão pequena na instrução dos teólogos e dos pastores de almas. É verdade que, nos últimos, tempos, no quadro das disciplinas, filosóficas que precedem os estudos teológicos propriamente ditos, concedeu-se um lugar à 'Psicologia experimental', mas isso não satisfaz plenamente as exigências da assistência espiritual. Devemos concordar com o que diz Rbaban Liertz: “Com tôda a
psicologia experimental avizinhamo-nos bem pouco da exploração da vida psíquica, propriamente dita”. Não podemos ignorar existirem não poucos pastores e educadores que, apesar de trabalharem há longos anos no cuidado das almas, conhecem mal os homens. As razões são muitas. Uma, porém, consiste na falta de introdução adequada, na compreensão da vida psíquica humana durante o período da preparação profissional. Com o mesmo direito, senão maior, com que se introduzem os futuros pastores nos conceitos basilares da Sociologia pastoral e da  Economia política, devem exigir-se lições de Psicologia pastoral, no programa de estudos teológicos,
  Uma instrução a fundo sobre questões de psicologia, e justamente com critérios bem diversos, mais práticos do que os que se realizam no estudo da psicologia experimental, é absolutamente necessária para o futuro pastor de almas; de qualquer modo, mais necessária que tantas “matérias secundárias”, cujo conhecimento se exige hoje dos estudantes de teologia.

  “A psicologia pastoral é lacuna que espera ser preenchida” (Bopp). São estas as palavras com que o conhecido teólogo de Friburgo aponta a necessidade da exposição dos problemas da psicologia pastoral.
  Diante da urgência desta ciência auxiliar teológico-pastoral justifica-se a pergunta: por que até hoje não se chegou ao tratamento sistemático de uma psicologia pastoral, apesar de todos os trabalhos preliminares e parciais? A razão talvez derive da natureza dos problemas a tratar, os quais, achando-se à margem do campo científico, suscitam discussões quanto a pertencerem ao campo do teólogo ou do
psicólogo. E, de fato, na prática concreta, muitas vezes é difícil decidir se um psicopata deve tratar-se com o confessor ou com o psiquiatra.

  Outro motivo da falta de exposição sistemática de psicologia pastoral talvez fosse possível reconhecer na falta de que se ressente muitas vezes o cientista da necessária experiência do assistente espiritual, enquanto ao pastor prático falta em geral tempo para se ocupar dos resultados científicos da psicologia moderna. Além disso devemos confessar que, até pouco tempo, também a psicologia tinha descurado não poucos problemas do próprio campo específico. “A psicologia
moderna abandonou, com desinteresse na verdade surpreendente, as questões do temperamento, mentalidade, caráter, ou delas tratou de passagem, como apêndice ou complemento (Utitz). Dessas considerações emergem, de um lado, as razões da falta de uma psicologia pastoral conclusiva, de outro a necessidade da colaboração
entre teóricos e práticos, sacerdotes e leigos, educadores e médicos.

  Podem atribuir-se as deficiências da vida religiosa de inúmeras pessoas de nossos dias a razões e causas várias e a situações de fato. A maior parte das almas, hoje afastadas de Deus, não se pode ir por via direta. Suas dificuldades não consistem tanto no fator religioso, mas nas suas premissas. Muitos homens modernos, do ponto de vista religioso, estão cegos e surdos; não enxergam nem escutam mais.

  Não estão nem mesmo em condições de poderem fazer atos de fé, esperança e caridade. São contrários ao que é dogmático, ético, religioso-tradicional e eclesiástico-confessional. Nem sequer oram ou só raramente e, mesmo então, só à sua maneira, conforme o humor e o capricho, mas não “em espírito e em verdade” (Jo 4,23).
 
  A presente exposição de questões psicológico-pastorais, que de nenhuma forma pretende ser trabalho exaustivo e completo, mas só uma experiência e incitamento ao nobre bacharelando.


Pesquisa: Pastor Charles Maciel Vieira

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